quarta-feira, 20 de maio de 2009

Erro preventivo

Depois de 20 anos de vida regular na Itália – com cidadania imaculada, impostos e deveres cívicos em dia – , fui chamada pelo Serviço Sanitário Nacional deste país a comparecer em seu escritório. Segundo o SNN, desde julho de 2005 não tenho o direito aos serviços de assistência médica gratuita dos quais usufruí. Queriam me apresentar a conta, de alguns milhares de euros.

Sentí um cheiro de Liga Nord no ar. Uma espécie de caça às bruxas, organizada nestes tempos por esta liga nacionalista que sustenta o atual governo Berlusconi. Uma forma de conclamar todos os estrangeiros residentes neste país, com alguma escusa para identificar o os clandestinos dos outros regulares.

Chegando ao guichê, tive um momentâneo suspiro de alívio. Tratava-se do habitual “erro do chip”, como eles costumam alegar, para toda a bagunça informática dos órgãos públicos locais, com a qual estamos habituadados. A Itália, segundo um dado levantado pela União Européia, ocupa o penúltimo lugar em informatização, antes da Grécia.

A fim de evitar fraudes e mortos-pensionistas, há alguns anos o SNN distribuiu um novo cartão magnético aos usuários, com todos os nossos dados e com uma data de validade. A cada expiração, o cidadão deve renová-lo, comparecendo pessoalmente ao guichê, sem o qual ocorre a suspensão do direito. Ora, a expiração de validade do meu cartão é de 2010, destacado em negrito. Nem o guichê sabia me dizer o porquê da minha convocação.

Após culminar em acesas discussões e um maço de documentos reunidos, constatou-se que no chip interno do meu cartão, a expiração datava o ano de 2005. Incompatibilidade de dados entre o interno e externo do cartão! Daquele ano para cá, eu seria uma usuária-fantasma, e ainda que o erro fosse comprovadamente do sistema informático, a pena era irreversível. Eu teria que pagá-la primeiro, e só com o comprovante, recorrer depois ao apelo!

Mas o mais surpreendente foi a razão pela qual o meu nome travou no SNN. O local do meu nascimento, o Brasil. Ao incompetente de turno que não leu todos os meus dados restantes, - claramente registrada como cidadã italiana - , bastou o Brasil como o meu país de origem para fulminá-lo e decretá-lo como clandestina.

A prova disso é que, ao recorrer diretamente à diretoria regional do SNN para uma correção definitiva, o meu país de nascimento foi mais uma vez motivo de estranheza e uma possível interpretação 'preventiva' por parte do novo funcionário. Ao verificar o meu sobrenome - homônimo de uma nota marca de moto japonesa - , o infeliz abriu inicialmente um sorriso de surpresa, para logo em seguida me devolver o formulário. Desta vez, com um brilho sarcástico e um sorriso de desdém, apontando:

"Ecco, errou 'de novo', não é possível... Preencheu 'Brasil', mais uma vez?! Depois, não venha reclamar que a culpa é da nossa informatização!"

Chamo isso de interpretação retroativa de um erro preventivo. Complicado, não?

7 comentários:

Punksauro Nei disse...

Bueno, em Milano mesmo, passei um ligeiro sufoco...

Ainda era no tempo da lira.

LuMa disse...

Nei, a minha sorte é que tenho um sobrenome que aquí todos conhecem, por associar imediatamente à marca da moto japonesa. Ainda assim, acham "incompatível" a minha cara com a nacionalidade: não sou bunduda, nem mulata e nem sei sambar, sabe como?

Adrina disse...

Suzuki, Yamaha, Kawasaki ou Honda? :)

Paola disse...

Tenho a sensacnao que alguns funcionários públicos sofrem de perversão, adoram fazer os outros sofrerem, nnao há explicacnao plausível!

LuMa disse...

Adrina e Paola:

O problema dos funcionários públicos é a preguiça. Lêem somente a parte inicial de um documento, e o resto, fica por conta de suposições, o que dá nisso. Se vêem o meu sobrenome japonês, acham que preenchí errado ao escrever 'Brasil', como nacionalidade. Se digo que sou brasileira, digamos, sem uma foto, já fulminam como possível clandestina.

Caça às bruxas existe de fato. Recentemente pegou um grupo de centenas de brasileiros clandestinos com documentos falsos, inclusive com cartões do SNN, e eles usufruíam tranquilamente os serviços sanitários. Neste aspecto, não tiro razões dos oficiais. Necessidade urgente de um clandestino é uma coisa. Falsificar é outra.

hissahe disse...

E depois me perguntam por que eu sempre saio daquí com o passaporte japonês e não com o brasileiro..

LuMa disse...

Hissahe:
Já resolví este "lapso" informático(rs). É desagradável assumir, mas compreendo o que quer dizer... Os estereótipos já são duros a morrer, e se não bastasse, há muitos brasileiros que ainda reconfirmam e legitimam os lugares-comuns.