quarta-feira, 6 de maio de 2009

A crise e a janeleira


Economia pode não ser uma ciência exata, mas tateando aquí e alí com minhas equações elementares, me deparo com estranhezas do mercado de consumo incompreensíveis para o meu escarso conhecimento.

Moro num prédio de esquina, de frente a uma galeria de arte e leilões, a "Galleria Rosenberg". Veio a estabelecer-se aquí cerca de oito anos atrás, período em que coincidiu com a introdução do euro, o aumento do custo de vida e o início do empobrecimento da classe média européia.

Eu sou um exemplo desta consequência. Foi naquele período que comecei lentamente a perder meus melhores clientes, compradores de produtos de luxo italianos. Por trabalhar apenas com o mercado japonês - até então o mais próspero e melhor pagador - , acabei por pagar um duplo preço, com um câmbio incompatível e um mercado minguado por produtos chineses.

No mesmo vórtice, grifes como Dolce e Gabbana, Armani e Gucci viram descer pelo ralo não apenas os seus lucros, mas também o próprio fascínio e extravagância com o empobrecimento de seus consumidores - a classe média, média-alta e os novos-ricos. E, sabe-se, os ricos nunca enriqueceram as grifes.

Com a globalização, foi inevitável que a conservadora indústria italiana também sucumbisse aos poderes da China, com todos os efeitos colaterais. Desemprego, perda de competitividade, aumento de novos-pobres e o rebaixamento de salários com o fluxo de novos imigrantes. E como a cereja que coroa o bolo, chegou esta nova crise financeira, cujo resultado todos já conhecem.

Paradoxalmente, em pleno março de demissões e quebradeiras internacionais, esta galeria de arte a que me referí acima inaugurou com festança a ampliação de seu espaço, surpreendendo a minha previsão pessimista. Aumentou suas vitrinas por toda a esquina e passou a ocupar também o piso superior, repaginando a decoração interna. Desde então, esta janeleira tem observado um aumento de compradores(?), questionando as incoerências que uma crise possa gerar.

Para o meu espanto, há 15 dias foi inaugurada uma outra galeria de arte na calçada oposta, a menos de 50 metros do meu prédio e da Rosenberg. Sem dizer que mais à frente, na quadra sucessiva, há também uma galeria de Fotografias, a "Photographer's Room". Há 3 anos anima o espaço com importantes profissionais italianos, seus mecenas e badaladeiros culturais.

É verdade que este bairro seja um discreto boêmio, com restaurantes, bares e clubes culturais, mas certamente não serão estes boêmios a alimentar esta pequena amostra do mercado de arte. Nestes tempos de crise?

Segundo um dado recente, a cada 3 novos restaurantes, 2 fecham o batente em menos de um ano nas cidades como Roma e Milão. Nos últimos 3 ou 4 meses, apenas neste pequeno bairro, contabilizei ao menos 5 restaurantes que fecharam. E abriram outros tantos. Os únicos que se mantêm indiferentes à crise parecem os mercantes de arte.

Estas são apenas interrogações de uma janeleira habituada com a economia real, de cujas equações no seu microcosmo não chega a nenhuma resposta.

4 comentários:

Paola disse...

Ninguém explica, por um lado o empobrecimento, por outro esses consumidores de arte? Parece, que tem gente querendo "guardar" o dinheiro em colchões mais degurs que a bolsa.
Lembra do bovino que foi leiloado na semana d crise?
Apesar de tudo, há os que estão lucrando com a crise, quem? Eu não sei, mas tem!

LuMa disse...

Paola: É verdade que é na crise que nascem oportunidades, mas "jamé" imaginei que galerias pipocassem tanto em tão pouco espaço! O que me deixa intrigada é: quem são?

hissahe disse...

Comprar agora que os precos estao baixos e vender quando subirem. Conheço gente que está cortando comida em casa mas está comprando ações adoidado.

LuMa disse...

Hissahe: Você que está aí, deve observar este fenômeno melhor que eu, até porque não há povo que mais pesquise e experimente novas opções de investimento que o japonês. Lembra dos anos 80, em que até donas-de-casa eram experts na compra de ações? Hissahe, de um ano pra cá, proliferaram os SUVs Porsche, Mercedes, BMW pelas ruas, na mesma proporção em que o povo está empobrecendo...