terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A dignidade do seu Paulo

Há fatos que nos comovem tanto que nenhum adjetivo é suficiente para expressá-lo. Um e-mail que recebí ontem foi um destes casos.

Quando conhecí seu Paulo em 2003, durante as minhas férias no Brasil, ele havia acabado de adquirir um velho Corcel, enferrujado como as sucatas que recolhia pela cidade. Havia comprado à prestação, a perder de vista. Da carroça de mão, estava dando um salto de qualidade com este ferro-velho motorizado. Uma mão na roda também à sua família. Enquanto a esposa e seus filhos recolhiam latas e papelões pelas ruas, ele os reagrupava e transportava para a revenda. Quando o carro funcionava.

Mas seu Paulo sonhava alto. Havia encontrado um terreno onde montar um depósito de sucatas, o seu primeiro e próprio negócio. Faltava-lhe apenas a soma para adquirir uma balança industrial, de segunda-mão, para que o sonho fosse possível. Sem que ele me pedisse, apostei na sua honestidade.

Passaram-se 5 anos e nunca mais o ví durante as minhas férias sucessivas. Minha mãe não o encontrou mais pela cidade, assim como nunca o procuramos. Não queríamos constrangê-lo por aquele modesto valor.

Encerrei o seu sumiço apenas como um mau costume brasileiro. Diante de exemplos macroscópicos dos nossos governos, seu Paulo era um caso irrelevante. Poderia ser um ingrato, mas era também um grande trabalhador.
Preferí reverter o valor em gratidão. Pela prontidão com que sempre socorreu a minha mãe nas emergências. Quando corria para trocar um fuzível do chuveiro ou consertar uma telha quebrada. Mesmo após uma jornada extenuante puxando a carroça pela cidade. Nunca nos impôs um preço pelos seus serviços, senão, sob pressão da minha mãe.

Ontem, recebí um e-mail da minha família. Me informava perplexa que o seu Paulo, depois de 5 anos, batera à porta da minha mãe, esperando que eu também me encontrasse no país. Levou consigo um bolo de comprovantes de depósitos bancários feitos à mim.
Contou que seus primeiros anos foram difíceis e perdera até mesmo o velho Corcel, para retornar à carroça de mão. Se envergonhava de nos procurar.
Ao recuperar a estabilidade, decidiu que saldaria a sua dívida moral. Desde o final de 2006, - sem que a minha família ou eu percebesse - estava todos os meses me restituindo o que lhe sobrava no final do mês. O seu último depósito foi feito agora, logo após o Natal. E o fez, por mais de 2 anos, sem nos avisar.
Dentre os comprovantes, há meses em que me depositou apenas 30 reais, sabe se lá com quanto sacrifício e renúncia. Preferiu fazê-lo em silêncio a aceitar nossa recusa pela restituição.

A dignidade do Seu Paulo não há preço. Não se compra e nem se vende a nenhum dinheiro.

2 comentários:

janimoveis disse...

Luma, adoreiiiii!!!!!Me emocionei!!!Meus olhos se encheram de lágrimas, mas foi de esperança.A história do seu Paulo me fez acreditar novamente que ainda o mundo tem salvação e que ainda existe muita gente boa por aí!!!!!Valeu pela emoção!!!!!bjus

Shoiti disse...

São pouquíssimos, mas existentes, os cidadãos honestos... e para cada um desses poucos, "BIBA, BIBA, BIBA, KAMPAI, KAMPAI, KAMPAI!" porque afinal de contas, eles jogam na cara do governo que inadimplentes são os ricos...