terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Brasileiros

Edvard Munch - "Ashes" ("Cinzas") - 1894

É difícil conter o mal-estar.

Há cinco dias acompanho uma executiva japonesa de Nagoya, compradora de uma grande empresa do setor textil, cuja relação profissional já dura há mais de 14 anos.

Sua permanência em Milão é sempre breve, com agenda plena, pouco sono e muito trabalho. Divorciada e sem filhos, não se intimida diante de grandes desafios. Sua competência é respeitada por obtusos homens de negócios, italianos e japoneses.

Ainda que eu a receba pelo menos quatro vezes ao ano nas temporadas de moda, sempre declinamos confidências superficiais, mantendo nossas conversas a interesse estritamente profissional. Mesmo durante um jantar, nunca superamos a barreira imaginária que o bom senso estabelece como vida privada.

Desta vez, porém, notei uma apatia incompatível ao seu vigor habitual. Estimulada talvez por aquela taça a mais de vinho, ela se confessou mais vulnerável e inquieta pelos últimos fatos. Acabara de perder um grande amigo. A quem suponho, nutrisse uma profunda admiração. Morrera atropelado e sem socorro. Para o meu estupor, supostamente por um brasileiro.

Para sufocar minha indignação e vergonha, tentei desviar o infortúnio a uma casualidade para confortá-la, não fosse o golpe final a me fazer definitivamente calar por qualquer justificativa.

Em outubro, ao retornar da sua penúltima viagem de Milão, encontrou o seu apartamento de Nagoya arrombado e destruído. Obra de um grupo de brasileiros, que já responde ao processo por este e mais dezenas de outros crimes cometidos na sua região.

A prisão dos brasileiros não lhe restituiu, porém, a serenidade. Nem o conforto emotivo que a própria casa nos oferece ao retornar do trabalho. Ao lembrar da intimidade violada, com seus armários e objetos pessoais revirados e manuseados pelas mãos desconhecidas, ainda lhe causa repugnância. Sensação que ela compara ao estupro, uma violência à alma. Para se refazer da agressão, ficou mais de dez dias vivendo num hotel, esperando o medo passar.

Pelo tempo restante do jantar preferiu apenas discorrer sobre a fragilidade humana, que do fato em questão. Da impotência, da solidão e da angústia. Sua discrição não permitiu avançar sobre quem fosse o amigo que perdera e o que a representasse. Sei apenas que a Polícia japonesa ainda procura o assassino brasileiro. Preferiu fechar o argumento dizendo que não há nenhuma prisão ou pena que a faça fechar a ferida.

Em 14 anos, foi primeira vez que a ví tão frágil. Com a promessa de nos encontrarmos em março, me despedí rapidamente, pois já não suportava mais o embaraço diante daquela pessoa.

7 comentários:

Paola disse...

Vergonhoso, agora bandido é produto de exportação brasileira!
Que vergonha!!!!!

PAola

Shoiti disse...

Pois é... o pior é que os mais imorais, mau-caráter é que acabam 'representando' o Brasil...

Anônimo disse...

ela sabe q vc é brazuca?

LuMa disse...

Ao Anônimo: Pois é, foi muito embaraçoso pra mim. Ela sabe que sou brasileira, óbvio, mas em nenhum momento demonstrou rancor à nacionalidade destes bandidos. É uma mulher sábia e inteligente o suficiente para não generalizá-los, o que me fez doer mais ainda... Discreta, ela nem teria me contado senão fosse eu a incitá-la a me dizer o porquê do seu abatimento.

REGINONA disse...

LUMA, CONCORDO COM O SHOITI, SÃO ESTES BRASILEIROS QUE FAZEM A FAMA DO BRASIL LÁ FORA, UM BANDO DE APROVEITADORES, JÁ BAGUNÇARAM POR AQUI E AGORA ESTÃO EXPORTANDO CRIMES PARA FORA.

Paola disse...

O pior é que é mesmo brasileiro, nnao entendo uma palavra de japonês, mas vi na NHK, que a situacão está muito complicada.
Tomara que a polícia enquadre todos eles, e que eles cumpram a pena, lá!

naomi disse...

fama de esconder bandido estrangeiro já temos há muitas décadas :(