quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Luxúria



Em meio a correspondências de Natal, recebí uma foto da família T, de quem eu havia perdido contato há 14 anos. T parece bem mais velho, apesar de seus 40 e poucos anos. Assim como os pais, quase irreconhecíveis, pelo peso dos anos e dos próprios pecados .

T é um caso emblemático dos anos 80, a “década perdida”. Vítima e autor do próprio destino.

Eu o conhecí no final dos anos 80. Veio me buscar na estação de Nagoya no primeiro encontro. Chegou numa Mercedes de último modelo, inteiramente vestido de grifes. Relógio Bulgari, tira-colo Hunting World, camiseta Iceberg, calça Versace. Nos pés, um par de Pollini, e na cabeça, um boné, cujo nome eu desconhecia. O boné era apenas um detalhe que o autenticava representante do Japão afluente, excessivo e presunçoso daqueles anos.

Como outros de sua geração, T vivia inebriado pelo sucesso e já não distinguia o que fosse o trabalho da especulação. Com 20 e poucos anos, abriu sua importadora de grifes, expandindo seus negócios de Tóquio a Osaka. Depois, estendeu a outros produtos de luxo, como carros, móveis e decorações, para saciar os vorazes consumidores, embriagados pela riqueza fácil. Aventurou-se até mesmo no mercado de arte, sem nunca ter ouvido falar de Marc Chagall ou Roy Lichtenstein. Com pesado e contínuo investimento assinado pela mãe, a maior protrocinadadora de suas extravagâncias.

Em 92, como era previsível, T não se safou do arrastão da crise financeira internacional. Entre credores, yakuzas, bancos e agiotas, lhe restou apenas o amor de mãe. Complacente com o filho que perdera seus brinquedos, abriu novas fontes de dinheiro, decretando uma sequência de declínio sem retorno. Desta vez, envolvendo toda a família. Consignou terrenos, casas, bens móveis, a fábrica da família e enfim, a casa onde moravam. Com a morte do avô, hipotecou também um prédio com 20 apartamentos, construído tijolo por tijolo em seus anos de saúde. E por fim, concedeu a própria dignidade.

T perambula pelas ruas de Nagoya há mais de 10 anos. Sua instabilidade psíquica não permite um emprego estável e vive de pequenas contribuições de amigos. Para pegar o trem, comer um prato quente ou comprar um remédio. Seus pais vivem hoje num minúsculo apartamento alugado, sem um banheiro interno.

Na foto, vejo seus sorrisos vazios. Fico pensando se esta crise de 2008 tenha algo mais a subtrair de suas vidas.

2 comentários:

Anônimo disse...

Juro que não sei o que é pior. Se a crise econômica atual ou a bola econômica dos anos 80.

Shoiti disse...

Acho que todos sofremos o risco da demência, da loucura, do vegetativo... principalmente se o fator financeiro for o de maior peso em nossas vidas.
Shoiti