sábado, 27 de dezembro de 2008

Berlim Oriental I


No embalo da Grande Limpeza de final de ano, decidí uma arrumação também no meu arquivo morto. Organizei fotos antigas, digitalizei algumas, relí trechos de velhas cartas e separei documentos pra lá de vencidos. E, surpresa, encontrei um documento que me fez submeter a um exame do meu estado de ostracismo, numa espécie de check-up físico e moral dos anos que a depressão me subtraiu. Coisa de fim de ano.

Um flash-back materializado neste visto datado março de 1988, emitido pela DDR, República Democrática Alemã, com o qual atravessei o muro de Berlim, ainda Oriental. Os ventos da perestroika já sopravam pelos quatro cantos da União Soviética naquele ano, mas nem o mais otimista Gorbachev supunha que dalí a pouco mais de um ano, os punhos de ferro de Erich Honecker sucumbiriam ao poder de oposição da Volkskammer.

Inerte a tudo, eu estava então mochilando alegremente por alguns países europeus naquele ano. Com apenas 500 dólares no bolso e muitos bigmacs no estômago. Me encontrava na encruzilhada de Hannover, entre a pretensa decisão de ir à Suécia ou conhecer Berlim, com sobras daquele dinheirinho. Decidí pela última, e não me arrependo até hoje.

Fiz o pedido do visto para atravessar o muro de Berlim, diretamente no guichê blindado de Charlie Point, que dividia a cidade em socialista e capitalista. Passei por 3 guichês sob olhares gélidos e inquisidores dos militares da DDR, enfileirados ao longo do corredor, com respectivos Kalashnikov. Ainda com o mesmo uniforme da 2ª Guerra. O máximo previsto para o visto era de apenas 24 horas, com a obrigação de adquirir 60 marcos no valor local. Não me lembro do câmbio de então. Apenas de que 60 marcos era muito dinheiro para a contenção de um bolso terceiromundista como o meu.

Estranhamente, apenas o documento de visto está aquí comigo, para me trazer à memória, fragmentos do tempo em que eu dispunha de muita energia para mochilar por aí. Todas as fotos daquelas viagens estão guardadas no meu arquivo do Brasil. Os desengonçados e fumacentos Trabants, o prédio de Reichtag, a mudança de guarda no túmulo do soldado desconhecido e o carrinho de cachorro-quente estatal. Nas caminhadas, encontrei até mesmo uma agência de turismo. Detino: Havana, Pyongyang, Moscou e outras capitais da cortina de ferro.

Há muito o que lembrar daquela viagem, e não caberiam aqui os detalhes que a poucos interessam, se não, de que o mito dos ideais socialistas já era frágil como são os ideais dos neoliberais de hoje. Tudo passa, enquanto nós mortais continuamos a perseguir o dinheirinho que chegue ao final do mês.

Estou muito sedentária hoje. Creio que eu deva guardar este pedaço de papel, que acabei de digitalizá-lo. De tempos em tempos, me fará lembrar quando eu ainda transpirava energia e curiosidade por todos os poros.




Um comentário:

hissahe disse...

Pedacinhos de papel, petalas de flores, enfim tantas coisas que nao conseguimos jogar fora e eis que um dia a gente abre uma portinha ou algum livro e uma pagina da nossa vida vem a tona. Parece brincadeira que o nosso passado guardou pra nos no presente.
Sao energias que fluem e nos faz lembrar que um dia fomos jovens como aqueles que hoje nao precisam de muitas horas de sono pra cairem nas baladas.
Um imenos beijo