terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Lapsus Linguae



Uns 15 ou tantos anos atrás, me improvisei intérprete de um empresário japonês loiro, que viera recrutar profissionais de hotelaria e cozinha, dispostos a comandar seus fornos no Japão. Era proprietário de uma pequena rede de restaurantes de cozinha italiana em Tóquio.

Ao receber seu cartão de visita hesitei. Não eram meus óculos, estava alí, em negrito e em corpo 18: Ristorante “Santo Domani”. Tentei ampliar meus conceitos. Uma suposta metáfora alusiva à esperança do amanhã? Um santo novo de alguma vertente anarco-cristã? Um pequeno lapso do impressor míope? Não, era Santo Amanhã. Mesmo.

Entre embaraço e desconforto com candidatos, passei 3 dias tentando dissuadi-lo a mudar de nome assim que retornasse ao Japão. Tentei convencê-lo de que o substantivo “amanhã”, beatificado santo, não constava em nenhuma página da mais remota fantasia cristã e nem figurava alguma gravura de obscura imaginação medieval.

Mas a sonoridade de “domani” lhe agradava. E acertei na mosca, inspirava subjetivamente a esperança, a confiança. O país evocava a Igreja, e por extensão, tudo terminava em santo, - o que não seria de tudo inexato.

Em todo o caso, era tarde. Sua rede já era conhecida nas redondezas de Shibuya. Eu até pude visualizar o letreiro luminoso, com bandeira italiana ao lado, declarando escancaradamente os atributos culturais do seu proprietário.

Cartões de visitas, materiais publicitários e todos os utensílios de mesa também já estavam devidamente personalizados, gravados e bordados para sempre. Em gótico, para dar aquele toque de requinte europeu. Só lhe faltava levar bons chefs, de olhos grandes e verdes, para convencer a autenticidade da casa.

O fato é que no último dia, me fez acompanhá-lo numa daquelas lojas de quinquilharias do centro, onde vendem objetos antigos e raros, cuidadosamente envelhecidos em alguma fábrica de Shenzhen. Serviam para dar um toque de histórico na decoração.

Queria também imprimir um documento heráldico. Daqueles em falso papiro com brasão, que os turistas adoram. Com genealogia completa da remota linhagem e títulos nobiliares, com espaço apenas para preencher o nome de família. Não me deu ouvidos nem desta vez. Imprimiu 4 cópias com o nome Restaurante Santo Amanhã. Exibiria no hall de cada uma de suas filiais.

“Pintam placa-se”. Lembrei deste singelo letreiro que um amigo presenciou há muitos anos. Condescendente sim, mas não com um empresário que veio do Primeiro Mundo, raios.

3 comentários:

Shoiti disse...

oieeeeeeee, passei para te deixar um beijão... e continue escrevendo... pq eu quero a LuMa dantes...

hissahe disse...

Mais uma pra coleção de piadas niponicas...Otimo, Luma!!!!

Beijos

batatatransgenica disse...

gramaticalmente incorreto, sim, mas romântico :oD

[aaah, você tanto provocou lombriga que comprei nattoo hoje!]