sábado, 25 de abril de 2009

Verde-amarelo, e daí?

Mesmo fora do período de Copas, é comum ver brasileiros no exterior vestidos literalmente de verde e amarelo. Se as cores não são alusivas à seleção, exibem algo que os faz enaltecer, como estampa que remeta a Ayrton Senna ou frases como "A Amazônia é nossa" e "I love Rio". Eu os vejo nas filas de embarque e nas ruas, mesmo fora do contexto esportivo, bem ao limite do embaraço.

Me pergunto sempre de onde vem essa necessidade de afirmação contínua de brasilidade fora do país. É claro que para muitos é apenas um modo espirituoso e galhardo de declarar-se turistas, uma categoria universal que, por ser apenas um passante, está imune a qualquer referência depreciativa do país de origem. A menos que o comportamento os denuncie.

Confesso que tenho muitas reservas a este comportamento verde-amarelo em certos meios. Além de tocar o limite do provincianismo e o ufanismo exacerbado - e eles estão intrinsecamente ligados - revela escancaradamente a dissimulação da própria debilidade como cidadão do mundo.

Ora, nunca vejo indianos, suecos, japoneses ou mexicanos que vivem no exterior vestindo literalmente suas bandeiras, se não no período da Copa do Mundo, pois não necessitam gritar ou reafirmar ao mundo as próprias glórias. Nem o norte-americano branco, republicano, anglo-saxão se vê por aquí, vestido de bandeira nacional. Até porque sabe que poderá levar pedradas. Há o bom-senso de praticá-lo apenas dentro de casa, em vez de causar hostilidade local.

Não há nada que criminalize uma bandeira nacional, mas levantada num contexto ou num momento inadequado pode sugerir equívocos com a ignorância presunçosa. Como aquelas passeatas no Japão, por brasileiros desempregados. Não há nada mais deprimente que a auto-comiseração levantando uma bandeira, como fosse uma causa nacional.

Me veio em mente escrever estas linhas ao ler inúmeros comentários de trabalhadores brasileiros num jornal de língua portuguesa no Japão, baixando a lenha nos japoneses e portugueses, com piadas de extremo malgosto. Enalteciam a suposta supremacia da legislação trabalhista e 'qualidade de vida' brasileiras em relação a estes países; e ainda, os acusavam de racismo por encontrar-se vítimas daquela crise global. Vítimas do descaso do próprio país, o Brasil, preferem apontar o dedo aos problemas alheios. E na falta do que dizer, levantam uma bandeira.

2 comentários:

Nei Ken iti Schimada disse...

Eu acho que alguns compatriotas no exterior acham que estão numa eterna copa do mundo porque estão no exterior e porque todas as copas do mundo são no exterior.

Aqui tem gente com camisa da Gaviões da Fiel, Mancha Verde ou Tricolor Independente. Flavela, já vi.

A auto afirmação é uma forma de não sermos os cordiais de Sergio B de Hollanda e nem o viralata de Nelson Rodrigues.

E no futebol somos puro sangue e predadores. É assim por aqui.

LuMa disse...

Nei:
Acho irônico que desempregados brasileiros no Japão manifestem com a bandeira nacional, por uma causa que afeta a todos como fosse exclusivamente sua. Ora, é como se eu, órfã do descaso da própria família(Brasil), fosse hóspede na casa de alguém, e qdo o anfitrião deixa de me servir comida, eu me indignasse pela falta de solidariedade, discriminação e outros escambaus. Exigir do anfitrião, mas fechar o olho para a barbárie que se vê na própria família. Pagar impostos onde se trabalha é um dever social fundamental em qualquer canto do mundo. Ora, me hospedo na casa de estranhos, transgrido as regras sociais, não me interesso pela língua e ainda saio por aí assaltando casas de japoneses? Muitos chegaram num estado de semi-mendicância no país estranho por culpa do descaso do próprio governo e agora exigem uma casa arrumada, cama limpa, comida e tratamento de primeira dos anfitriões, apenas porque pagam impostos? Mas pagavam no seu próprio país? Ou omitem os bens adquiridos com o $ do Japão e continuam sonegando o IR no Brasil? O parasitismo brasileiro é endêmico e só lamento pelos que ainda mantêm dignidade, seja como cidadão que como brasileiro.