domingo, 10 de janeiro de 2010

A lambreta branca


Me lembro que já de manhã, as rádios começavam o tocar o hit daquele ano, o Hey Jude, dos Beatles, e as cigarras disputavam o rítmo de fundo, escondidas entre goiabeiras e abacateiros do quintal.

Da cozinha da minha avó, outros sons domésticos formavam uma orquestra à parte. O frigir das panelas ao fogo, o bater dos pratos e travessas e o tilintar dos copos, entremeados de muitas risadas femininas. Um exército de mulheres de vizinhos e parentes, munido de aventais e mangas arregaçadas, num vai-e-vem de preparativos para a festa de casamento do meu primo.

Como se quisesse introduzir um interlúdio na obra musical daquela iminente festa, meu primo - o grande noivo daquele dia - me chamou da sua lambreta branca. Era o seu último passeio de solteiro em duas rodas. Me pôs em pé entre o banco e o guidão, protegida por seus braços. A minha idade não compreendia a razão da sua pequena fuga, quando horas depois, deveria estar de banho tomado, perfumado e bem vestido, diante da igreja.

Fizemos o passeio aleatório entre os frondosos eucaliptos e casarões de fazendas vizinhas, até alcançar o asfalto. Lá, acelerou a lambreta, enquanto inúmeros odores passavam pelo nosso olfato. O cheiro de estrumes de vacas, o frescor dos eucaliptos e o cheiro de gasolina dos carros, que resumiam aquele verão. Ao fundo, a linha azulada da serra da Mantiqueira nos seguia, e como fotogramas que mudam em segundos, os pastos, casarões e porteiras passavam como flechas por nossos olhos.

Não me lembro quanto durou o passeio. Lembro apenas que estávamos sentados alí, numa colina em meio às vacas, observando a corrente do rio Paraíba, sem trocar uma palavra. Eu era apenas uma criança, sobre o que poderíamos conversar? Me pergunto ainda hoje o que terá passado pela sua cabeça. Certamente se preparava para entrar numa sagrada instituição, a sua Família; em cujo tempo, a eloquência pelo bom casamento prevalecia sobre escolhas pessoais. Ou, quem sabe, necessitava apenas de uma bocada de ar fresco, antes de fazer parte de formalidades sociais prestabelecidas.

Seu casamento correu bem e feliz. Um Aero Willis verde o aguardava na porta da igreja, um carrão de luxo à altura de um Rolls Royce de hoje.

Eu era feliz porque havia muita comida sobre a mesa, depois da cerimônia religiosa. Chuchus envoltos em papel laminado, cobertos de espetinhos - de queijo, salsicha, picles e azeitona - , balas-de-noiva, sushis, churrascos e brigadeiros. E para evitar parentes insatisfeitos, meu tio se muniu de peixes grelhados - se sabe, japoneses sem um yakizakana não é festa - e sashimi de sardinhas e nishimê - cozidos de inhame, alga marinha e outros ingredientes. A formalidade era perfeita.

São apenas lembranças da infância para me distrair sob um domingo monótono como este.

6 comentários:

Punksauro Nei disse...

E hoje? Como esta o primo Marlon Brando tupiniquim?

LuMa disse...

A transgressão virou pó. O Marlon Brando virou um empresário e sua rebeldia sucumbiu ao capitalismo:)

Anônimo disse...

oi LuMa,não teve discurso, rsrsrsr eu ja me lembrei de estar com fome e o discurso que não acabava nunca(rsrsrsr),bjs.(diu)

LuMa disse...

Diu:
Bem lembrado, os discursos intermináveis,rs! Era uma tortura ficar sentadinha diante daqueles pratos, esperando o exército de sogros, pais, padrinhos e amigos falando sem parar e eu sem poder esticar a mão e roubar um brigadeiro. Diu, eu tive um vestidinho branco de festa que acho que durou uns 5 anos. Em todas as fotos, de vários anos estou com o mesmo vestidinho,rs!

maker disse...

gostoso isso, varias vezes pegava minha moto e saía voando por aí, nem sei se hoje, no meio desse transito infernal consegue-se isso, mas na prática creio que seja preciso exercitar a liberdade, uma coisa tão autêntica, que estamos sempe a um pequeno passo de perdê-la. Com certeza vc sentiu isso, ele passou esse virus, silênciosamente, no vento que tocava seus rosto, como um segredo que se passa apenas às pessoas especiais que tem capacidade de mantê-lo de geração geração.

LuMa disse...

Maker:
A melancolia dos tempos adultos precisa de tempo em tempo recuperar a metáfora da liberdade na infância - única fase da vida que nos permite crescer somente através do instinto - para não cair na paranóia social. É uma pena...