terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Turistas sexuais no Brasil



Por hábito, peço sempre a última poltrona do avião quando a viagem é longa, na esperança de que eu possa dormir dignamente deitada, quando o voo não está lotado. A escolha do fundo é sempre uma loteria, pois nos reserva também surpresas desagradáveis. Se não é a incessante descarga no banheiro, são as pontuais conversas e gargalhadas incivis de passageiros entediados. Com a desculpa de esticar as pernas, se aglomeram lá no fundo em animados bate-papos. Sem o menor respeito aos que dormem em torno.

Mas foi naquele estreito 'ágora aéreo', que me ví inúmeras vezes transformada - ainda que eu fingisse profundo sono - em confidente involuntária de conversas de turistas estrangeiros, com aberrantes lugares-comuns acerca do país de destino. E não há desconforto ou frustração maior que ouvir suas piadas e não poder replicá-los, quando o tal destino é o próprio país de origem.

Na triste estatística pessoal, sete em dez viagens ao Brasil, ouví excitadas conversas de expectativas pelo paraíso brasileiro de "mulheres fáceis", por grupos despudoradamente constituídos apenas de homens, solteiros ou aposentados. Alemães, suíços, italianos ou holandeses, não importa; quase sempre com o destino final em alguma cidade da costa brasileira.

Nem é necessário compreender suas línguas para intuir o contexto, pois bastam alguns substantivos em português saltarem cá e lá nas suas conversas, intercaladas de grandes gargalhadas, como se ao redor não houvesse presença de brasileiros. Palavras-chaves como "mulata", "favela", "veado', "bunda" e outras coisas inomináveis, supostamente pescadas na internet ou nos guias turísticos promovidos no exterior pela própria Embratur. Ou até mesmo sugeridas por brasileiros que vivem nos seus países. E afinal, o que dizer se agências do próprio governo brasileiro instrumentalizam a expectativa, com fotos de mulheres seminuas, com o Corcovado ao fundo, para vender o próprio turismo fora do país?

Num dos tantos sonos roubados a caminho do Brasil, me chamou atenção uma conversa sussurrada entre três italianos, de me fazer estremecer, logo ao lado da minha poltrona. Supunham, talvez pelos meus traços orientais, a ignorância da língua. Valiam-se de expressões 'codificadas', mas bem compreendidas por mim. Discorriam sobre um brasileiro que os aguardava no aeroporto, com roteiro 'turístico-sexual' supostamente personalizado, incluindo aí a garantia de pousadas em companhia de 'ragazzini' e 'ragazzine', meninos e meninas, durante a permanência numa cidade nordestina. E sem nenhum pudor, e com uma calculadora nas mãos, se puseram a contabilizar a 'tarifa' delle ragazzine - como fosse aquisição de mercadoria qualquer - e outras vantagens oferecidas pelo câmbio de moedas.

Hoje de manhã, ao ler este artigo na Folha, meus dedos dispararam sobre os teclados para escrever este texto. Um impulso talvez para contrapor o senso de impotência perante conversas como aquelas, ouvidas durante os voos, e pela ausência de um cerco mais severo contra o turismo sexual no Brasil. E quanto ao artigo, Robin Williams apenas confirma o que se espera do nosso país. A começar pelo que a própria Embratur vende aos estrangeiros.

Segundo os dados de 2008 da Unicef, 80 mil italianos se lançam anualmente ao turismo sexual.
Quantos serão os americanos, japoneses, alemães e outros tantos estrangeiros prontos para o embarque hoje?

12 comentários:

Adrina disse...

LuMa, há um tempo atrás eu li uma crítica severa do Brasil; uma empresa de chocolates local, muito antiga e famosa, montou um stand numa feira de alimentos num país da Europa do qual nao me recordo, e usou o quê para ilustrar sue produto? Mulatas semi-nuas sambando, para vender chocolate. Nada mais a acrescentar...

LuMa disse...

Adrina:
É frustrante tentar desmentir os lugares-comuns qdo os próprios brasileiros confirmam e reconfirmam esta imagem. Certa vez, neu marido e eu fomos a uma cidade da costa brasileira em plena temporada desprovidos de reserva em pousada. Tudo lotado, nos acomodamos ingenuamente numa delas, sem obter a mínima referência. Com grande embaraço, descobrimos que estava cheia de suíços e alemães, sobretudo de aposentados, de cujos quartos se notava um intenso entra-e-sai de meninas que não tinham mais que 13 ou 14 anos. Na época, não existia um número sequer onde denunciá-los! E mesmo que o fizéssemos, os próprios habitantes pareciam indiferentes à toda aquela prostituição de menores, sabe como?

Anna Karine disse...

Eu sei (nos sabemos) que a maioria das brasileiras não se encaixa nesse estereótipo. Mas sejamos francas, existe uma parcela que confirma (e como!) esse estereótipo. E é justamente esta parcela que os gringos tem contato seja aqui, seja no Brasil. Morei em Fortaleza por um ano e vi de perto como é a situação. So pra ter uma ideia, no aeroporto existe uma espécie e "mostruario". As moças formam uma filinha na porta do desembarque internacional. O estrangeiro pode escolher a cor, altura e peso que deseja. O mesmo acontece no Rio, Salvador, Natal e agora em outras cidades litorâneas(ninguém me contou! Eu vi com meus olhos!). Na minha ultima viagem ao Brasil,fiquei horrorizada!Me colocaram rodeada de "piriguetes" que não faziam nenhuma questão de esconder a sua exuberância sexual e que conversavam animadamente sobre suas conquista amorosas na Itália. Uma tinha 3 filhos e três pensões alimentícias(cada um de um italiano diferente), a outra batia no peito, orgulhosissima de ter tomado o marido de uma italiana e a ultima dava dicas de como arrancar euros dos gringos. Sem contar na quantidade de italianos que se aproximavam para tentar fazer "amizade" com elas. Tive que fingir, durante 10h de voo, que estava dormindo para não ser incomoda por elas e nem pelos italianos.
Acho que para limpar a imagem do Brasil no exterior é necessário primeiro limpar o Brasil. Limpar o Brasil da pobreza, da miséria e da falta de valores.

Anônimo disse...

pedroSocorro, não aguento mais, Geizas, mulheres frutas, loira da laje me ajude beijos LuMa

LuMa disse...

Karine:
Vc completou o quadro real dessa pequena parcela que confirma, (infelizmente a mais visível)cujo fardo, quem carrega é a maioria laboriosa, com formação e profissão dignas. Peguei um voo como contexto, porque dele se obtém uma pequena amostra social e cultural de seus turistas e o perfil de alguns brasileiros que vivem fora. E como fosse uma regra, essa minoria se faz notar, quase sempre recostada lá no fundo, trocando 'contatos' com turistas. Finjo sempre que estou dormindo, mas capto conversas das mais cabeludas, juro. É uma tristeza... Beijos, Karine.


Anônimo(a):
Eu tbém peço socorro qdo uma mulher-fruta se desloca e exibe rebolados fora do país como um produto. O rebolado e o contorno bem arredondado do traseiro brasileiro são bonitos, mas correm o risco de beirar o limite entre sensualidade e vulgaridade para o conceito de alguns povos. Daí, para um equívoco é um fio. Abraços!

naomi disse...

há alguns meses eu li um comentário que preferi arquivar na gaveta "galhofa" móde não perder as estribeiras: o sujeito afirmava que o combte o turismo sexual no brasil é ruim porque significa uma qeda abrupta na geração de renda. e nem falava de prostituição, mas da renda legal mesmo: bares, hotéis, restaurantes, táxis...

naomi disse...

vamos lá de noo, respira fundo: há alguns meses eu li um comentário que preferi arquivar na gaveta "galhofa" móde não perder as estribeiras: o sujeito afirmava que o combate ao turismo sexual no brasil é ruim porque significa uma queda abrupta na geração de renda. e nem falava de prostituição, mas da renda legal mesmo: bares, hotéis, restaurantes, táxis...

Punksauro Nei disse...

Mas esses gringos todos nao fazem a licao de casa?

Eh por isso que no hemisferio norte o indice de natalidade anda no 1 por 1.

Nativos nao transam mais com nativos?

TV a cabo, internet, papo furado, mal halito? Qual que eh a do gringo que nao leva a gringa pra jantar fora?

Por isso eh que vendem auto ajuda, tanto quanto camisinhas. Ha uma prospera relacao cambial.

LuMa disse...

Naomi:
É a sujeição ao dinheiro, a proveniência pouco importa, basta fechar o olho. É aquele pensamento corrompido, derivado da subcultura, o mesmo que absolve um político com 'rouba, mas faz'. Sabe aquele "jeitinho" de que alguns até se orgulham de recorrer, de dar trocados para o guarda de trânsito; para o cara da alfândega; pedir emprego para um vereador pisando em cima dos concursados,etc,etc,etc? Tudo se encerra fechando os olhos.

Nei:
Os gringos fazem sim, a lição de casa. Sabe qual deve ser o 'pobrema'? É que alguns acham que as gringas de casa sejam muito ortodoxas. Ou muito cultas. Com algumas extra-gringas, como aquelas descritas por Karine aquí em cima, até um humilde pedreiro gringo ou um velho aposentado se sente um Hugh Hefner, dono da Playboy. Ou até mesmo um Shakespeare, qdo conversam com elas. O senso de poder jamais saboreado no próprio país deve disparar adrenalinas!

Fabrício Andrade disse...

Luma, é impressionante como você relatou bem o problema e a sua preocupação. Estive duas vezes em Natal e uma em Fortaleza. De fato, o turismo sexual é algo inescondível. É de uma flagrância estarrecedora. Gringos e mais gringos, louros, brancos, altos, com moças caiçaras, altura e pele tipicamente de brasileiras do nordeste. Parece que há um encantamento dos dois lados. Ambos pensam que estão 'arrebentando', quando, na verdade, estão se reduzindo a nada, a objeto. Hoje o culto ao corpo é demasiadamente incentivado, as mulheres frutas que o digam. E a mídia incentiva, a TV Record, 'evangélica', e a Globo, metida a politicamente correta, também. Malhar e cultivar as idéias ninguém quer não. Parabéns.

Anônimo disse...

Não aguentei to de novo aqui,o Fabricio falou em uma coisa que vivo falando a danada da televisão, que só tem oque não presta, quando meus filhos ainda pequenos começaram a assistir com uns nove anos, o colégio deles~pedi para não assistir,hoje minha neta, outro dia dançando Creu quase enfartei,e foi na escola, que ela aprendeu, acho que não tem jeito, tá tudo dominado como dizem mesmo,o manda é a audiência,dinheiro ,celebridades, que por sinal o lixo de fora,ninguem quer ser professora, medico, dentista, até dona de cas por que não, só celebridades.Beijos LuMa até Julia &Julia para comentar,

LuMa disse...

Fabrício:

É uma honra e um conforto receber alguém que de Direito Constitucional respira e vive dele. O imaginário dos gringos, tratando-se de algo subjetivo, é duro a morrer, mas há algo que poderia impedir seu avanço: as leis. Leis mais rigorosas - aliadas a uma consciência coletiva, claro - que não fiquem apenas registradas em documentos. A sensualidade brasileira é visceral, e creio, seja duro tratá-la com uma legislação,já que um pequeno deslize de interpretação pode correr o risco de tornar-se uma censura. Mas ao menos no que se refere aos pedófilos, leis severas devem ser baixadas, sim. Sou ignorante e desatualizada em matéria de leis brasileiras, mas certamente haverá uma fórmula que não dê trégua aos pedófilos, ao menos. Obrigada mais uma vez pela sua visita! Abraços.

À avó anônima e/ou Luiza&Luiza(?)

Agradeço a sua visita, novamente. Por incrível que pareça, esse fenômeno da TV está tomando a cabeça das crianças por aqui tbém. Seus modelos de profissões futuras não são mais os médicos, advogados, professores e (bombeiros, na minha infância,rs), mas aquela figura do Big Brother ou da apresentadora seminua do momento. A culpa é nossa, a dos adultos. Um grande abraço!