terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O tempo e o mouse



Passei ontem a inteira manhã imersa no meu arquivo morto - coisas do final dos anos 80 para cá - a procurar dados de um antigo contato de trabalho. Em meio a pilhas e pilhas de correspondências, faxes e rabiscos amarelados.

Folhear o registro daquele período precedente a internet parece paradoxalmente remoto e extemporâneo. Ao contrário da velocidade do mouse, a busca requer o manuseio, folha por folha. Cansativo e entediante, se devo confessar. No entanto, o passado é fisicamente tangível, graças a esses papéis, um registro profissional de sangue, suor e vá lá, algumas cervejas de todos estes anos.

Recuperar o passado hoje nos basta um clique. Localizar algo ou alguém dispensa a fadiga do carteiro ou arquivos impressos saídos das gigantescas prensas de Gutemberg. Nem precisamos mais calcular apreensivamente o tempo de um telefonema internacional por medo de uma conta pesada.

Há também redes sociais, através das quais podemos recuperar amizades dispersas ou bisbilhotar vida alheia, o último hobby global. Com o clique, recuperamos do arquivo invisível o passado em imagens e vozes, dispensando relações táteis e intermediários enervantes. Mas podemos cancelá-las no etéreo com a mesma velocidade. E o fazemos, diariamente.

Não sou refratária a toda essa comodidade. Ao contrário, sou infinitamente beneficiada no trabalho e nas relações afetivas; sobretudo por me encontrar fisicamente longe das minhas referências culturais, famílias e amigos. Desfruto também da outra vertente, a globalização - esse mal necessário - , através de vôos econômicos e outros serviços que me ajudam a aplacar emoções retidas pela distância.

Porém, com a nova percepção do tempo, tenho a impressão de que algo tenha sido subtraído da nossa alma. A espera ou a expectativa, por exemplo. Será o preço a pagar pela voracidade que reduz a existência de 20 ou 30 anos em dois segundos.

O que me perturba nesse estranho senso de vazio é que o mouse parece ter banalizado nossas ações. Palavras como nostalgia e saudade não permitem mais margens para ruminações ou ressentimentos, porque o ontem e o hoje perderam a linha confinante. A volatilidade nos tolheu também o direito a devaneios e fantasias. Como aquela emoção que precede a busca nas redes sociais por amizades perdidas ou amores desencontrados. O desejo é aplacado e suprido tão instantaneamente que o prazer se vaporiza para cair novamente no esquecimento.

Mas são apenas ruminações passageiras, enquanto - raios - , ainda continuo a procurar o bendito documento.

3 comentários:

Punksauro Nei disse...

Jimi Hendrix lancou 3 albuns em vida. So tres.
Todo o resto - meia duzia ou mais - foi lancado digitalizado pos-mortem, 20 ou 30 anos depois.
Todos fas sabiam desse imenso acervo e esperamos esse tempo todo para ouvir os concertos, dvds, etc.
Hoje, num clic de mouse vem toda colecao por hd.
Banal.

Anônimo disse...

LU, ta na hora de vc vir ao Brasil, descançar, andar descalça,tomar banho de chuva é o que não falta, rsrsrs, por aqui, chupar manga no péou do pé sei la, e ouvir moda de viola, ou musica na vitrola se quiser tenho a minha que foi do meu avô. bjs.(diu)

LuMa disse...

Nei:
Captou bem a sensação. A nova percepção do tempo eliminou intermediários improdutivos, mas essa facilidade toda eliminou tbém o prazer da espera, o desejo, a expectativa. Tudo é saciado com a mesma velocidade que o jogamos fora. Até hoje o consumismo se limitou ao uso material. Agora, as emoções é que têm duração relâmpago.

Diu:
Obrigada pelo pensamento singelo. Não temos como desvincular do mundo contemporâneo e de suas facilidades, mas acho necessário - ao menos de tempo em tempo - retomar a simplicidade da vida, como a que vc sugere. Ah,comer goiaba com bichinhos no pé ou ouvir o coaxar dos sapos e grilos à noite faz bem à alma, não é?