terça-feira, 2 de junho de 2009

A fortuna dos incautos


Nascemos com os pés no chão e desastres aéreos impressionam sempre. Um monstro de centenas de toneladas que se sustenta no ar, que enigma. Eu sei, o homem já pisou a Lua e eu ainda a vejo como um conceito, uma abstração envolta em romantismo. Mas, raios, o avião é coisa para comuns-mortais.

Manhã de 14 de novembro 1990. Vôo Alitalia Milão-Zurique

Na manhã daquela data, o aeroporto de Linate em Milão havia se transformado em ringue de batalha entre os passageiros. Encoberto pela densa névoa que costuma formar em outono sobre a região, o aeroporto decidiu paralisar todos os cerca de 40 vôos nacionais e internacionais naquela manhã. Com exceção a dois privilegiados. A casualidade quis que um deles fosse o meu vôo para Paris, de onde horas mais tarde prosseguiria para Tóquio. O outro privilegiado seria para Zurique.

Fazia frequentes viagens entre Milão e Tóquio naquele período, mas aquela era uma das viagens mais urgentes e inadiáveis, que os clientes japoneses não perdoam. Em meio a tapas e ponta-pés da confusão italiana, me ví colocada no vôo errado, aquele para Zurique, de onde queriam que eu fizesse uma conexão-extra para Paris. Com o medo de perder minhas amostras contidas na bagagem - razão daquela viagem - , travei uma luta hercúlea no balcão contra os "espertos" que me precediam.

Somente após chegar a Tóquio é que recebí a notícia. O outro vôo, no qual estava para ser embarcada, caíra nas proximidades de Zurique, matando 46 passageiros. Minha irmã, que então vivia em Milão, já estava prestes a ter um colapso. Por esquecimento ou distração, eu nunca deixava os dados dos meus vôos com ela, razão pela qual a fiz temer pelo pior: o de encontrar o meu nome entre as vítimas, enquanto eu, inconsciente da tragédia, prosseguia a viagem.

Naquele dia, a fatalidade se desviou de mim. É o único canhoto de passagem aérea que nunca joguei fora.

9 comentários:

Punksauro Nei disse...

Yeah!

Como dizia Vinicius:

Mais pesado que o ar.
Motor a explosão.
Toneladas de litros de gasolina.

Eu dentro? Tá louco?

Vôos são assim. Desastres são raros, mas quando acontecem, são inesqueciveis.

Hoje em dia tem Milano-Narita (ou Osaka)direto, não?

LuMa disse...

Nei:
Milão-Narita tem, mas nunca peguei um vôo direto - sobretudo naquela época -, pois a diferença de preço era enorme ainda.

O funcionamento de um telefone ainda é um enigma pra mim, imagina um avião. Pra dizer a verdade, não sei nem como funciona uma torneira. :) Desde 14-11-1990, data fatídica, nunca deixo de avisar alguém qdo me desloco, mesmo que seja entre SP e Mogi de ônibus.

Adrina disse...

Nem sei o que dizer...

Anônimo disse...

Nossa Luma, vç nunca me contou sobre isso!!!!Ainda bem minha amiga, que vç ficou para contar!!!!bjusssss

Prosopopéias Cintilantes disse...

Oi, Luma
Nessas horas a gente fica perplexo e percebe que tudo pode mudar muito rápido.
Eu viajei no final de semana. Na volta de Pirenópolis/GO para Brasília, peguei o maior temporal da minha vida. A estrada, sem acostamento, estava deserta. Foram vários quilômetros com um temporal incessante. Quando chegamos ao aeroporto de Brasília a chuva já estava mais fraca.
Graças à Deus eu e meus amigos, nove ao todo, chegamos bem nos nossos destinos, Rio de Janeiro e Salvador.Quando acordei na manhã seguinte fiquei sabendo do acidente com o Air France e fiquei chocada!

LuMa disse...

Regina:
Ah, essas coisas a gente só lembra qdo há um incidente como este, né. Vc acredita que eu ainda guardo o canhoto da passagem que me salvou? Tá perdido em alguma parte da estante, mas tá guardado. Vc sabe que a ficha demorou pra cair. Levei alguns dias, e só qdo ví fotos nos jornais daquí é que caiu. Minha irmã ficou braba comigo, porque ela não tinha NENHUM dado sobre o meu vôo, nem o nome da companhia, porque eu nunca lembrava de repassá-la. Desde então, sempre aviso alguém, até pra pegar o trem suburbão SP-Mogi. Mas neste caso, é mais pelos assaltos :)

LuMa disse...

Oi Prosopopéia:

Que prazer te ver aquí, e muito obrigada por nos contar a sua experiência. De fato, aquele monstro de avião que paira no ar ainda é um mistério pra mim. No seu caso, que acabou de desembarcar, a sensação só passa depois de alguns dias. A ficha não cai tão fácil. Que bom que vocês voltaram sãos e salvos! Um abraço!

Anônimo disse...

Como diria o matemático que admiro muito, a ciencia nao controla a natureza. Controlamos o aviao mas nao o ar, o vento, o mar. Fazemos a tecnologia avançar mas nao controlamos o caos que inevitavelmente virá a seguir.
Conheço um comissario que morre de medo de turbulencia, disse que nao tem nada de colete salva-vidas nem de pouso no mar, nem de uso de escorregador para sair nadando. Tudo isso é bobagem e é pra ficar com medo mesmo.

Anna

LuMa disse...

Anna:
Eu conto mesmo é com os meus pés chatos :) Uma palmilha e um sapatinho cômodo e saio andando feliz. Teve um imperador chinês, se não me engano do séc. 9, que sonhava em voar. Recrutou vários cientistas da época e usava os prisioneiros de guerra como cobaias. Mandava eles voarem da torre do castelo com todas as maluquices - asa de couro de cabra, asa de bambu, etc - e matou centenas deles!