quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Identidade cultural


É natural que eu, brasileira descendente de japoneses, seja sempre abordada como chinesa ou japonesa por estes lados do Ocidente. Não possuo absolutamente nenhum dote anatômico que me remeta ao país do Lula. Além dos olhos puxados (aquí docemente chamado de "olhos de amêndoas"), não sei sambar, não tenho um traseiro generoso e sou branquela.

Já me crucificaram até pelas atrocidades cometidas por Mao durante a Revolução Cultural, apenas para citar a pequena confusão. "Xiè, xiè", mas sou da terra onde cantam os sabiás. E então, me vem a vontade de ir embora para a Pasárgada, onde possa ser compreendida.

Isso significa um eterno duplo fardo. Ou triplo, segundo o interlocutor. O de ser interpelada sobre o Japão e o Brasil. Devo ter, na ponta da língua, informações políticas, econômicas e culturais aprofundadas e atualizadas de ambos os países, para não dar vexames. E desmentir os tristes lugares-comuns de ambos os países.

Não é uma tarefa fácil, pois tudo o que me abordam é centrado na perspectiva de grandes transformações históricas. Devo constantemente (e precariamente) tirar gilbertofreyres, florestanfernades e xogunatoseodanobunaga das mangas para escamotear minha precariedade e dupla identidade cultural. Inútil dizer que meus antepassados chegaram ao Brasil no início da década de 30, e que muitas águas e gingados correram até o meu nascimento.

Mas, sabe-se, basta utilizar a tática dos pseudo-intelectuais que se ancoram no subterfúgio mais prático. Tirar da cartola nomes 'notos' como Comte, Montesquieu ou Weber, e a coisa está feita. Basta citá-los para intimidá-los a não fazer perguntas tolas para a cabeça ainda mais tola como a minha.

3 comentários:

Punksauro Nei disse...

Comte eh legal, mas eh de direita.

Montesquieu vende a mae e nao entrega.

Weber, bem, Weber.

Florestan eh mais chao. Pelo menos manda pra pqp sem sotaque.

A gente TEM que sambar, Luma. E TEM que jogar bola. E TEM que ser faixa preta de qualquer coisa.

Ate de remedio.

LuMa disse...

Nei, então já posso confirmar o lugar-comum. Sou faixa preta de 5o-Dan, mas de remédio:)

Gueixa, samurai, 'meniños de rua' (assim mesmo, em espanholiano/italianhol), 'karoshi'(morte por estafa no trabalho) e coisas do gênero já tiro de letra, sem problemas. Mas há os falsos informados que gostam de perguntar filosofando em cima(com ares paternalistas), tendo sempre como parâmetro a cultura eurocentrista, sabe como, rs.

Shoiti disse...
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