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terça-feira, 6 de abril de 2010

Tulipas

Quem me dera

até para a flor no vaso

um dia chega a primavera
(Paulo Leminski - Hai-Kai)



"A admiração pelo gato é o início do senso estético." (Erasmus Darwin)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Lobos e "lobos"



Todas as manhãs, ao passar os olhos pelos jornais, me pego arquitetando uma fantasia quase infantil de desforra contra a barganha, clientelismo, fisiologismo e outros ismos que não acabam mais. O de possuir um hipotético poder de fulminá-los, quem sabe, com um eficiente raticida ou uma dolorosa armadilha de caça, até o extermínio total desses desqualificados humanos - reprovavelmente chamados "lobos".

Enquanto isso, esses belos exemplares reais de lobo estão merecendo atenção pelo justo e legítimo retorno. Segundo o jornal La Repúbblica esta manhã, os biólogos que os monitoram no Parque Nacional de Majella - situado na região central do país, em Abruzzo - podem respirar tranquilos pela espécie.

Quase dizimados no início dos anos 70 pela contínua disputa pelo habitat com o homem, os lobos entraram no programa de proteção que já dura 40 anos. O resultado é que se contabiliza hoje uma alcatéia dividida em 12 grupos, num total de 70 a 80 exemplares na região.

Demonizada ao longo de milênios por caçadores, pastores e até pela literatura popular, era hora que a espécie retomasse o seu devido lugar. O homem tem uma dívida moral impagável com estes belos animais.

Quanto a "lobos" de outra alcatéia, tudo indica que estão longe de extinção. Aliás, festejam a multiplicação contínua.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Corujice


Momento doméstico de paz. Me deleito com o profundo sono desta princesa, a Miss Universo.
Já passaram as pobres vacas, as galinhas, e agora, os porquinhos. Que não venham inventar um vírus de gato, ou viro uma leoa!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Condomínio de passarinhos


É frustrante sentir a primavera batendo à porta e possuir apenas estes vasos para recebê-la. Pudera morar numa casa com um jardim. Me bastariam dois metros de terra. Para poder observar de perto o microcosmo de insetos em festa pela chegada da abundância, em simbiose com a força dos brotos.

Quem já está em alvoroço há mais de uma semana, e já às 5 da manhã, são os passarinhos. Todos os anos eles formam uma espécie de condomínio ornitológico sobre a imensa árvore de magnólia, logo ao lado da janela do meu quarto. A árvore tem mais de 10 metros de altura, e cada espécie parece ocupar os respectivos andares. Os menores no alto e os maiores em baixo, onde há mais espaço entre os galhos.

O minicondomínio neste período é uma alegre orquestra. Eles transam, cantam, constroem seus ninhos, alimentam seus filhotes e fazem arruaças já de madrugada. E brigam, como qualquer condômino humano! Ao entardecer, realizam até happy-hours quando retornam à casa. E lá pelas 9 da noite, já cansados, todos entram num profundo sono.

São estas pequenas criaturas de primavera que me dão a grande inspiração para repensar a vida. E de querer arejar também o meu microcosmo.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A dignidade do seu Paulo

Há fatos que nos comovem tanto que nenhum adjetivo é suficiente para expressá-lo. Um e-mail que recebí ontem foi um destes casos.

Quando conhecí seu Paulo em 2003, durante as minhas férias no Brasil, ele havia acabado de adquirir um velho Corcel, enferrujado como as sucatas que recolhia pela cidade. Havia comprado à prestação, a perder de vista. Da carroça de mão, estava dando um salto de qualidade com este ferro-velho motorizado. Uma mão na roda também à sua família. Enquanto a esposa e seus filhos recolhiam latas e papelões pelas ruas, ele os reagrupava e transportava para a revenda. Quando o carro funcionava.

Mas seu Paulo sonhava alto. Havia encontrado um terreno onde montar um depósito de sucatas, o seu primeiro e próprio negócio. Faltava-lhe apenas a soma para adquirir uma balança industrial, de segunda-mão, para que o sonho fosse possível. Sem que ele me pedisse, apostei na sua honestidade.

Passaram-se 5 anos e nunca mais o ví durante as minhas férias sucessivas. Minha mãe não o encontrou mais pela cidade, assim como nunca o procuramos. Não queríamos constrangê-lo por aquele modesto valor.

Encerrei o seu sumiço apenas como um mau costume brasileiro. Diante de exemplos macroscópicos dos nossos governos, seu Paulo era um caso irrelevante. Poderia ser um ingrato, mas era também um grande trabalhador.
Preferí reverter o valor em gratidão. Pela prontidão com que sempre socorreu a minha mãe nas emergências. Quando corria para trocar um fuzível do chuveiro ou consertar uma telha quebrada. Mesmo após uma jornada extenuante puxando a carroça pela cidade. Nunca nos impôs um preço pelos seus serviços, senão, sob pressão da minha mãe.

Ontem, recebí um e-mail da minha família. Me informava perplexa que o seu Paulo, depois de 5 anos, batera à porta da minha mãe, esperando que eu também me encontrasse no país. Levou consigo um bolo de comprovantes de depósitos bancários feitos à mim.
Contou que seus primeiros anos foram difíceis e perdera até mesmo o velho Corcel, para retornar à carroça de mão. Se envergonhava de nos procurar.
Ao recuperar a estabilidade, decidiu que saldaria a sua dívida moral. Desde o final de 2006, - sem que a minha família ou eu percebesse - estava todos os meses me restituindo o que lhe sobrava no final do mês. O seu último depósito foi feito agora, logo após o Natal. E o fez, por mais de 2 anos, sem nos avisar.
Dentre os comprovantes, há meses em que me depositou apenas 30 reais, sabe se lá com quanto sacrifício e renúncia. Preferiu fazê-lo em silêncio a aceitar nossa recusa pela restituição.

A dignidade do Seu Paulo não há preço. Não se compra e nem se vende a nenhum dinheiro.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Luxúria



Em meio a correspondências de Natal, recebí uma foto da família T, de quem eu havia perdido contato há 14 anos. T parece bem mais velho, apesar de seus 40 e poucos anos. Assim como os pais, quase irreconhecíveis, pelo peso dos anos e dos próprios pecados .

T é um caso emblemático dos anos 80, a “década perdida”. Vítima e autor do próprio destino.

Eu o conhecí no final dos anos 80. Veio me buscar na estação de Nagoya no primeiro encontro. Chegou numa Mercedes de último modelo, inteiramente vestido de grifes. Relógio Bulgari, tira-colo Hunting World, camiseta Iceberg, calça Versace. Nos pés, um par de Pollini, e na cabeça, um boné, cujo nome eu desconhecia. O boné era apenas um detalhe que o autenticava representante do Japão afluente, excessivo e presunçoso daqueles anos.

Como outros de sua geração, T vivia inebriado pelo sucesso e já não distinguia o que fosse o trabalho da especulação. Com 20 e poucos anos, abriu sua importadora de grifes, expandindo seus negócios de Tóquio a Osaka. Depois, estendeu a outros produtos de luxo, como carros, móveis e decorações, para saciar os vorazes consumidores, embriagados pela riqueza fácil. Aventurou-se até mesmo no mercado de arte, sem nunca ter ouvido falar de Marc Chagall ou Roy Lichtenstein. Com pesado e contínuo investimento assinado pela mãe, a maior protrocinadadora de suas extravagâncias.

Em 92, como era previsível, T não se safou do arrastão da crise financeira internacional. Entre credores, yakuzas, bancos e agiotas, lhe restou apenas o amor de mãe. Complacente com o filho que perdera seus brinquedos, abriu novas fontes de dinheiro, decretando uma sequência de declínio sem retorno. Desta vez, envolvendo toda a família. Consignou terrenos, casas, bens móveis, a fábrica da família e enfim, a casa onde moravam. Com a morte do avô, hipotecou também um prédio com 20 apartamentos, construído tijolo por tijolo em seus anos de saúde. E por fim, concedeu a própria dignidade.

T perambula pelas ruas de Nagoya há mais de 10 anos. Sua instabilidade psíquica não permite um emprego estável e vive de pequenas contribuições de amigos. Para pegar o trem, comer um prato quente ou comprar um remédio. Seus pais vivem hoje num minúsculo apartamento alugado, sem um banheiro interno.

Na foto, vejo seus sorrisos vazios. Fico pensando se esta crise de 2008 tenha algo mais a subtrair de suas vidas.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Funeral



Fui a um funeral ontem. Foi-se um amigo, o Fariolli, garotão milanês de 78 anos.

Infarto, e não enfarte, como costumo confundir. É indiferente, pois se foi.

Eu o conheci em 89. Então, a minha inexperiência no novo ambiente de trabalho chegava a ser constrangedora. Uma compra negligente era decretar a própria morte. Mas intuí sua honestidade logo no primeiro encontro.

Desde então, sempre trabalhamos juntos. Lotes de Armani, Prada, Dolce e Gabbana e dezenas de outras marcas de moda. Que ele sempre as chamava de “stracci” (farrapos, panos de chão). "È tutta robaccia!", tudo porcaria, repetia sempre.

Com milhares de roupas à disposição, estava sempre com o mesmo e velho cardigan, todo desfiado. Ainda que fosse de Missoni.

Não era falsa modéstia. Nem desejo de ostentação ao avesso. Havia iniciado neste setor nos anos 60, “quando Versace era um moleque, e vinha acompanhado de sua mãe, uma costureira”, repetia sempre. Talvez estivesse cansado de tudo isso.

Ele se foi.

Eu fico por aqui. Dependo dessas “porcarias” para continuar a pagar minhas contas.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Boca-de-leão (Anthirrinum Majus)

Foto: A flor que resiste a tudo por viver.


Trouxe as sementes desta boca-de-leão do Brasil e plantei-as num vaso, no início de agosto. Aquí também encontramos suas sementes. Afinal, ela é originária do Mediterrâneo e do norte da África.

Mas insistí em trazê-las do Brasil, já que lá, chegam a exuberante 1 metro e meio de altura, enquanto as sementes locais me garantem no máximo 60 cm. No clima brasileiro, suas flores exibem coroas maiores e mais fartas, coloridas e vigorosas durante o seu período de máximo esplendor. Eu as plantei decretando a sua morte, prevendo já o gélido outono que estava por vir.

No final de outubro, suas folhas resistiram verdejantes, mas sem um mínimo sinal de botões. Esterilidade a causa do frio. Não podia abrigá-la dentro de casa, por ser uma planta externa que requer raios de sol, ainda que fôssem minguados.

Estamos em dezembro, e a pobre criatura já resistiu a duas tempestades de neve, chuvas e fortes ventos que marcaram o mês de novembro. Hoje, por exemplo, faz 3 graus lá fora.

Mas milagres acontecem. Faz 3 dias que o primeiro e único botão se abriu, como se vê nesta foto. Contradizendo todas as regras da natureza.

Ela é uma estrangeira, que deseja apenas a dignidade de florecer, mesmo sobre um solo que lhe é hostil. E me ensina que não há adversidade ou intempérie que possa frear a sua sede de viver.