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domingo, 11 de abril de 2010

Sublime Swing




Improvisações divinas só podem ser assim chamadas porque irrepetíveis, únicas e fugazes.

Não se nasce músico com um passarinho na garganta e nem lhe basta o instinto para dividir uma improvisação rítmica como esta sem a pesada bagagem de muitos anos de estudos clássicos, como a de Bobby McFerrin. Não há partitura que o alcance.

domingo, 28 de março de 2010

Goya e as dores do mundo

Goya, da série "As Dores do Mundo"
Não há como permanecer impassível diante da ferida aberta e lancinante das guerras retratada por Goya há 200 anos sem nos trazer de volta à estupidez humana da realidade imediata. Apenas em 2008, foram computados na triste estatística da ONU nove guerras e 130 conflitos no mundo. As lúgubres e cinzentas pinceladas de Goya não nos bastaram. Suas pinturas, porém, continuam a denunciar nossas brutalidades.

É com esta sensação - entre resignação e cumplicidade - que saí da mostra milanesa Goya e o Mundo Moderno, cujo fio condutor traz uma profunda análise da violência humana deixada por Goya como um atormentado legado aos pintores modernos. Sua obra é uma referência não apenas temática, mas também estilística, a delinear a arte dos séculos 19 e 20. É dela que se nutriram os impressionistas, expressionistas, simbolistas e surrealistas.

A mostra percorre cinco sessões da trajetória do artista ao lado de outros célebres. Como pintor iniciado nos ambientes da corte, se confronta com J.L. David, Delacroix e Soutine, para seguir a temática cotidiana ao lado de obras de Victor Hugo, Kirchner, Daumier e Grosz. Sucessivamente segue o tema Cômico e Grotesco, no qual Goya retrata os absurdos e ironias da vida moderna, que mais tarde, iluminarão as obras de Picasso, Miró e Klee.



Obra "Não somos os últimos", do pintor esloveno Zoran Music.
Mas é na penúltima e mais importante sessão, a da Violência, que encontramos o atormentado Goya, já na fase em que não apenas a invasão napoleônica como a doença da surdez progressiva o afligem. Aqui, dezenas de suas gravuras negras que retratam a série As Dores de Guerra, acompanham obras de Dalí, Music, Guttuso e Picasso. Deste último, não podia faltar a obra "A Mulher que Chora" e "Mulher com o Filho Morto".

A mostra fecha com a sessão batizada de O Grito, e não haveria tradução melhor para completar suas expressões. A partir da obra "Nada. Isso diz", os sujeitos já são deformados pelo terror e a dramaticidade é seguida por obras de Bacon, Pollock, Appel, Kiefer, Giacometti e Saura, - este, um contemporâneo de Ensor e Munch.

A mostra no Palazzo Reale de Milão prossegue até dia 27 de junho. Vê-lo isoladamente nos museus de Madrí, Zaragoza ou esparsos pelo mundo é sempre uma experiência valiosa. Mas vê-lo lado-a-lado com os pintores heredes de seus gritos o eco se faz mais forte.


segunda-feira, 22 de março de 2010

Visitantes de pena


Faz algumas semanas que acordo em plena madrugada, com cantos de pássaros que vieram viver ao lado da janela do meu quarto, onde uma imensa magnólia abriga todos os anos um alegre minicondomínio ornitológico.

Nada fora do calendário natural - já que a primavera começou oficialmente ontem - , nao fosse o insólito fato que começam a cantar já por volta de duas ou três da madrugada, um fenômeno jamais notado em anos anteriores. Serão vítimas do engano ótico, provocado por iluminações urbanas ou inusitadas mudanças climáticas a subverter a evolução e o ciclo natural destes insones.

Segundo uma rápida consulta no site da Liga Italiana de Proteção aos Pássaros, uma das mais combativas associações no campo ambiental junto ao Bird Life International Europe, algumas espécies diminuíram cerca de 40 a 60% do território nacional em apenas dez anos.

Eu mesma já os coloquei em risco anos atrás, ao colocar pedaços de maçã à beira da janela, com expectativa de atrair mais passarinhos ao minicondomínio, mas desistí rapidamente. Possuo uma guardiã felina que passa a inteira estação a fazer birdwatching por trás da janela. Com a janela devidamente fechada, espero atraí-los sem artifícios este ano. Apenas com o silêncio.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ferlinghetti, tão longe, tão perto

Lawrence Ferlinghetti, escritor, editor, poeta e pintor

Não conheço San Francisco, infelizmente. Mas, se tivesse que atravessar o Atlântico para conhecer a cidade, certamente iria - quase exclusivamente - , para entrar na livraria e editora City Lights Bookstore, de Lawrence Ferlinghetti, poeta, editor e amigo de tantos escritores da beat generation que já se foram.

Neil Casssady e Jack Kerouac

Não fosse ele, não teríamos conhecido Kerouac, Ginsberg, Burroughs, Neil Cassady e tantos outros que fizeram sonhar a geração brasileira na primeira metade dos anos 80, com suas transgressões literárias, devoradas por nós como pipocas no cinema. Tempos em que - mesmo com algumas décadas de atraso com relação a outros países - , editoras como Brasiliense e L&PM presentearam o mercado editorial com a novidade literária e seus escritores colaterais - John Fante, J.D. Salinger, Bukowski, entre outros. Méritos então de Leminski, Pepe Escobar, Matinas Suzuki Jr, Claudio Willer e tantos outros tradutores e resenhadores da Folha.

San Francisco está longe para mim, mas Roma está próxima. O Museu de Roma, no bairro de Trastevere, está exibindo até o dia 25 de abril a mostra "Lawrence Ferlinghetti - 60 anos de Pintura", do editor que hoje está com mais de 90 anos de idade. Literatura e pintura sempre estiveram lado a lado para este remanescente -,talvez o último beatnik, ainda ativo.

Segundo as resenhas que li, a mostra traz pinceladas que começam com 1947, ano em que Marcel Duchamp e André Breton organizaram a Exposição Intermacional de Surrealismo, cujo estilo - com toque de Mirò e Tanguy - o influenciou nos primeiros traços, até chegar ao expressionismo onírico de Chagall.

Pessoalmente - se poderei ir até Roma pela mostra - , gostaria de ver a representação de "The Death of Neil Cassady", sobre a morte do escritor-símbolo da beat generation, co-protagonista e amigo de Kerouac no "On The Road".

Quem sabe, suas pinturas poderão me reacender como facho de transgressão estes tempos apáticos e ordinários.

domingo, 7 de março de 2010

Joyce e outros dublinenses


Será o forte vento que desnuda seus campos ou o frio que castiga a terra insular, mas o fato é que qualquer tentativa de descrever a fascinante Irlanda num único post encerraria uma imperdoável profanação à sua cultura.

E o que dizer dos literatos que nasceram neste berço maltratado pela natureza e por divisões políticas e religiosas, reduzidos nestes dois parágrafos e meio em meras ilustrações? A consciência não me permite fazê-lo, mas o tempo e o espaço são estes. Afinal, sua cultura produziu quatro prêmios Nobel de Literatura - William Butler Yeats, George Bernard Shaw, Samuel Beckett e Seamus Heaney - e outros tantos escritores como James Joyce, Oscar Wilde, Jonathan Swift, Bram Stoker, Sean O'Casey ou Oliver St John Gogarty numa imensa lista de nomes universalmente notos e menos notos.

Fica aqui apenas um banalizado registro digital destes últimos dias de inverno.
Estátua de Oscar Wilde no Merrion Square em Dublim, localizada em frente à própria residência, hoje ocupada pela Irish American University.

Ingresso de James Joyce Centre, onde viveu um extravagante professor de dança, Denis J. Maginn (citado como Maginni em Ulisses) que sedia mobiliários do escritor e fotos de personagens reais que o inspiraram nas citações da mesma obra.

Quarto de James Joyce, sempre no centro cultural acima.

Museu de Escritores de Dublim. Desnecessário citar a longa lista irlandesa.


Trinity College, fundado em 1592 por Elizabeth I, onde estudaram Samuel Beckett, Oscar Wilde, James Joyce, Bram Stoker, Jonathan Swift, entre outros.

Mural de grafite-protesto pelos direitos civis em Belfast, Irlanda do Norte. O conflito entre protestantes e católicos continua.


Penhascos de Moher no condado de Clare, na costa atlântica, se estendem por 8 quilômetros, cujo desfiladeiro mais alto mede 214 metros de altura.

Vilarejo de Doolin, no condado de Clare, na costa atlântica.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Praga e a praga

Músicos de rua num alegre rítmo de gypsy-jazz.

Esperava encontrar uma praga de baratas kafkianas como eu, caminhando pelas ruas de Praga. Mas diante da sua beleza, do inseto retornei ao estado de gente, e passeei estes últimos dias me sentindo um pouco mais humana.

Há tantos zilhões de sites, blogs e artigos de viagens sobre Praga na rede que decidí não escrever nada sobre ela. O fato de eu estar feliz, longe de casa, já valeu a viagem. Distanciar-se das nossas referências faz sempre bem à alma, não importa o destino.

Casa tcheca de Mozart, onde ele se sentia mais em casa que em Viena.

Praça Staromestské Námestí. Ao lado, relógio que informa a posição das estrelas, dos planetas e da hora.
De volta à casa, estou sofrendo a terceira metamorfose. Desta vez, me sinto uma joaninha. Pequena, mas feliz.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Hopper, o observador do ordinário

Pôr-do-sol em Cape Cod, de 1934

A chuva e o frio tentaram me impedir, mas não havia ocasião melhor que ontem para ir à mostra de Edward Hopper. Numa quinta, evita-se visitas guiadas de estudantes. Com a chuva, menos visitantes casuais. E menos incivilizados que se põem à nossa frente para monopolizar a apreciação dos quadros.


Sol da Manhã, de 1952
Sou incapaz de fazer uma resenha, mesmo descritiva. Nem pensar, se a presunção se referir à arte. Tenho profunda consciência da limitação dos meus recursos. Tenho um pesado livrão de Hopper, da Taschen, com biografia e obras completas que estou sempre a namorar em casa. Mas ele apenas me instrui, pois a liberdade de interpretá-lo diante de uma obra viva é sempre individual. Pessoalmente, mais que a interpretação, me basta a sensação, e quase sempre ela morre comigo. Nada feito. Para uma resenha decente, - e serão milhares por aí - há o Google grátis, à disposição de todos.

Conhecí, em primeira pessoa, o vazio que a depressão provoca à alma humana. Talvez por isso, foi inevitável não me reconhecer nas representações de Hopper. O mal da desolação, melancolia e sensação de estagnação da vida já lhe era contemporâneo na Nova York das primeiras décadas. Ele apenas as retratou com minuciosa observação a iluminação daquele panorama ordinário.

Se sabe, suas paisagens rurais e urbanas são sempre desertas, privas de figura humana. Sua importância é secundária e a não-expressão desta presença a cancela de algum significado na obra. Uma ambientação quase noir, como escreve o próprio curador da mostra. Como a figura feminina sentada sobre a varanda ou aquela sentada sobre o leito, de frente à janela, ambas que observam o nada. E há a casa de veraneio, estação ferroviária ou o posto de gasolina, todos desertos. O que essencialmente inquieta o observador é o vazio.


Célebre Aves da Noite (ou Notívagos), de 1942, ausente à mostra milanesa.
Infelizmente, a mostra de Milão não trouxe as obras mais célebres como a Aves da Noite (ou Notívagos), Gasolina e a Casa na Ferrovia (a que inspirou Hitchcock no Psicose), mas apenas seus numerosos rascunhos. Mas nada que desfalcasse a satisfação. Outras 170 obras me fizeram imergir completamente, por inteira manhã, no estranho mundo da incomunicabilidade.

domingo, 30 de agosto de 2009

Antidepressivo

Há fotogramas que valem mais que cem cápsulas de fluoxetina.

Como este, de olivas encontradas numa pracinha mal cuidada, de frente ao lago de Lecco. São frutinhas antioxidantes para a saúde. E - sobretudo - , antidepressivos para a alma.


Elas nunca se tornarão azeite e nem acabar num pote de conserva. Eu as quero perseverantes nos seus galhos até o inverno. Sem as jóias verdes a pracinha não há vida.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Monet e as cores flutuantes

Uma das obras da série "A Ponte Japonesa", de Claude Monet (1840-1926)

O prazer visual encerra em sí um universo tão infinito de beleza - , impossível de exprimir em toda a expansão que a língua possa permitir - , que dispenso desta vez me aventurar a descrevê-lo. Qualquer tentativa seria redundante.

E assim foi ontem a mostra "Monet - O tempo dos nenúfares", no Palazzo Reale de Milão, com 20 de suas obras do Museu Marmottan de Paris e mais 60 ukiyo-e de Hokusai, Hiroshige e gravuras do fotógrafo Kusakabe Kimbei.

Xilogravura "A Grande Onda de Kanagawa" de Hokusai (1760-1849), da série "As 36 vistas de Monte Fuji", presente à mostra
Fotografia pintada de Kusakabe Kimbei (1841-1932) presente à mostra.

Saí muda desta mostra. E compreendí quanto é pobre o meu vocabulário, incapaz de traduzir minhas emoções.

domingo, 17 de maio de 2009

Vanguarda Russa

Valeu a corrida pela manhã ao lago de Como, a 40 minutos ao norte de Milão, para ver a mostra dos pintores Chagall, Kandinsky, Malevich e Filanov, sediada no magnífico palácio de Villa Olmo. São 80 obras datadas entre 1900 a 1930, provenientes sobretudo do Museu de São Petroburgo.

A mostra festeja o centenário do futurismo, cujo movimento nasce do desejo de distanciar-se da tradição e burguesia, bem como do domínimo do impressionismo francês de então. O fim do futurismo russo deu-se simbolicamente em 1930, com o suicídio do poeta e dramaturgo Vladimir Maiakovsky, e com a ascensão de Stalin naqueles anos cinzentos.


O palácio de Villa Olmo, construído em 1797, onde anualmente realiza-se importantes mostras (ano passado foi a vez dos Impressionistas) é uma obra-prima à parte. Inteiramente decorado com afrescos e esculturas, hospedou importantes encontros políticos como o imperador austríaco Francisco Fernando I, Napoleão Bonaparte e o revolucionário e unificador da Itália, Giuseppe Garibaldi.


A caminhada por toda a orla do lago e o ar perfumado da primavera até chegar ao palácio também é uma moldura obrigatória desta bela mostra.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Estética e Stendhal

Seria um lugar-comum inserir esta foto, não fosse por razões que ainda me emocionam fortemente.

Ao passar em frente à esta catedral, me lembro sempre de uma cara amiga, que há cerca de 15 anos, veio me visitar de uma distante região do Japão. De mochila, "on the road" pelo continente, sem os filhos e sem o marido. Liberdade exigida e decretada por eles.

Ao erguer os olhos emocionados para os vitrais da catedral e suas gigantescas colunas de mármore, foi tomada por uma incontrolável vertigem e êxtase, à beira de perder seus sentidos. Enquanto observava paralisada as esculturas e obras de arte, suas lágrimas corriam sem parar, e em silêncio, embriagada por tanta beleza estética.

Em estilo gótico, a construção de Duomo di Milano iniciou-se em 1386 e levou cerca de 400 anos para ser concluída. Milhões de toneladas em mármore e séculos de rio de dinheiro terão passado alí, com o suor e sangue dos camponeses e fiéis, os pilares da Igreja. Mas a estética é indescritível, tamanha a beleza.

Naquele dia presenciei, de fato, o êxtase que precede uma síndrome de Stendhal, na sensibilidade desta amiga. Ética e Estética não são antagônicas, como me lembra Nei.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Arquitetura fascista


Tenho me dirigido diariamente ao hospital, em visita a um membro da família, por razões pouco animadoras. Espera-se sempre que qualquer conforto possa ser útil na inversão da doença.

Não creio que exista alguém que aprecie um ambiente hospitalar. Confesso, apenas o dever moral supera o esforço psicológico com que me preparo para ir até lá.

Talvez para compensar a minha inquietação, faço todo o percurso interno à pé, da cidade-hospital, através das longas alamedas do Ospedale Maggiore, repletas de jardins e flores.

Trata-se de um hospital construído por Benito Mussolini, em 1939, cujas linhas da arquitetura fascista, projetadas pelo arquiteto Giulio Arata, transmite a grandiloquência e a difusão dos ideais de massa do regime. Ocupa uma área de mais de 320 mil metros quadrados, com edifícios monumentais (em mármore) para cada setor, cortada por alamedas e jardins, o que requer o uso de microbus para a circulação interna.

A arquitetura fascista se fez presente também na história de São Paulo. Basta lembrar o já demolido casarão dos Matarazzo, na Paulista. Ou o edifício Matarazzo, no Viaduto do Chá, assinado pelo arquiteto Marcello Piacentini, conhecido como "arquiteto de Mussolini". Na Itália, Piacentini assinou várias construções monumentais, como o Palácio da Justiça de Milão, a Universidade La Sapienza de Roma, Teatro de Ópera de Roma, entre outras.

Fascista ou não, sua arquitetura me aplaca a melancolia com suas belas linhas, antes de chegar ao edifício onde se encontram as fatalidades.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Santa Livraria

Esta livraria é um daqueles lugares em que mesmo contra todas as regras de contenção destes tempos negros da crise, as minhas pernas se direcionam sozinhas, sem consultar a carteira. Ao menos uma vez a cada quinzena, para evitar coceirinha nos pés.


Ainda que o letreiro não indique, certamente há uma política de negócios semelhante a uma ponta-de-estoque. Portanto, nem sempre é possível encontrar títulos que procuramos, mas permite uma imersão no universo de cultura de alto nível a pouco preço. De livros de arte, pintura, literatura, fotografia, viagens, arquitetura, filosofia e outros mil e um argumentos. É impossível sair de lá sem ao menos dois livrinhos na sacola.


Hoje comprei estes dois livros, de Goethe e Chekhov, por apenas €3,90 cada um. Apenas como parâmetro, o valor não paga nem um sanduíche. Nem em boteco sujismundo, daqueles com apenas 2 fatias transparentes de presunto.

Gosto de livros de arte, e casualmente me faltava algo sobre o panorama geral da pintura americana. E não é que achei este, por apenas €9,90? (Seu preço real seria de 40 a 50 euros). São 300 páginas ilustradas com obras de 25 pintores mais expressivos do país, que vão da fase da descoberta do oeste, passando por impressionismo, realismo, vanguarda, expressionismo, pop-art e grafite.

Sou imensamente grata a esta livraria.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Subcultura



Leio esta manhã no jornal La Repubblica que a prefeitura de Kyoto decidiu fisicamente tutelar as gueixas, um dos tesouros nacionais do Japão. E com o uso de seguranças e placas com pedidos de respeito para evitar moléstias de turistas estrangeiros, dos quais têm sido vítimas nos últimos anos. Serão os mesmos que depredam esculturas dos museus abertos italianos ou aqueles que insistem em tocar as obras de Louvre com as mãos sujas de sorvete.

Armados de câmeras como paparazzi, os turistas chegam a invadir (sem tirar os sapatos, suponho eu) as exclusivas casas de cerimônia para fotografar os rituais de jantares reservados, quando não as abordam despudoradamente na rua.

O impulso da curiosidade e selvageria dos turistas não há limite, segundo o artigo. Alguns chegam a tocá-las na rua, puxá-las com grosseria pela manga do quimono ou pelos cabelos, para comprovar a autenticidade do refinado penteado (que requer ao menos quatro horas de preparo).

É a subcultura de Hollywood, materializada nestes turistas selvagens.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Pai

Painel exposto ao ingresso da mostra "O Mistério da Natureza, de Magritte, anunciando a inauguração do museu em junho, em Bruxelas, exclusivamente dedicado a ele.

A primeira vez que ví as imagens surreais de Magritte foi no final dos anos 60, nos meus 8 ou 10 anos de idade, com um misto de fascínio e incompreensão. Foi em uma revista japonesa, que meu pai adquiria numa importadora de São Paulo. Duas páginas recheadas de nuvens, circunferências e a sua marca registrada, o chapéu-coco.

Ele amava pinturas e fotografias. Teria 92 anos hoje, se estivesse vivo. A duras penas, ocupou-se por toda a vida no sustento de cinco filhas. Ainda que restassem apenas trocados no seu bolso, encontrava modos de adquirir livros ou revistas relacionadas às artes. Escondido da minha mãe, o que lhe custou duas separações. Renúncia de mãe é infinitamente maior em todos os tempos. Não fosse o último retorno, eu nem teria nascido.

Fui à mostra de Magritte na semana passada, intitulada “O Mistério da Natureza”, nesta cidade. Percorrí os 110 quadros pensando nele. Se tivesse tido uma única oportunidade na vida de conhecer alguma obra de perto, como um bom japonês que foi, teria preferido um impressionista a um surrealista.

Em todo o caso, dediquei o dia a ele.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Robert Frank

Foto: Robert Frank, da série "London Wales"


Um pouco antes do Natal, estive numa mostra de fotografias de Robert Frank, intitulada “O Estrangeiro Americano” no Palazzo Reale, desta cidade. A mostra é parte do acervo proveniente do Fotomuseum Winterthur e de Fotostiftung Schweiz, de Zurique.

Aprecio fotografias em preto-e-branco. Muito. Fico extasiada com o poder da lente, de captar um flagrante e resumir em sí toda uma história. Razão pela qual minhas paredes da sala e quarto são compostas apenas por posters de Gianni Berengo Gardin, Robert Doisneau e Louis Stettner. E não me canso de observá-los.

Pena que seja difícil encontrar posters de fotografias, hoje em dia. Digo, os baratos. Tenho um amigo que possui um Sebastião Salgado original. A foto de pescadores sicilianos de atum. Não faço nem idéia quanto tenha pago pela obra. Mas o $ servirá, certamente, ao Salgado de continuar suas andanças pelo mundo para retratar a pobreza que nos circunda.

Saí de lá pensando na minha Nikon F2, que há mais de 20 anos repousa na minha gaveta no Brasil. Foi presente de um grupo de amigos jornalistas. Caros amigos. Um instrumento cujo potencial está há anos-luz da minha capacidade de manuseá-lo. Não sei retratar. Sei apenas tirar fotos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

As catedrais


No alto, "A Catedral de Rouen", em pleno sol de Claude Monet (1894) -Museé d'Orsay.
À dir. a Duomo di Milano, minha, em píxeis. (08-12-2008)

Esta em píxeis é uma pretensa e precária tentativa de arremedar um ícone do Impressionismo. Apenas um subproduto, gerado pela eletrônica de consumo.

Ontem foi feriado aquí. Um frio de rachar a pele, mas o dia amanheceu ensolarado e sem uma nuvem no horizonte.

Uma caminhada para esticar meus músculos me fez voltar para casa com esta imagem.

A propósito, batí esta foto por volta das 11 da manhã. Para completar a meticulosidade de Monet, registro as luzes de um gélido sol de fim de outuno. Só não a fiz de dentro de um quarto de aluguel, como ele.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Luzes de Signac

  • Paul Signac - "The Dining Room" - 1886-87

    Semana passada, fui a uma mostra de Seurat, Signac, Pissarro e seus amigos. Saí de lá pensando no efêmero mundo da luz. De que basta o ponteiro do relógio mover-se de apenas um ou dois dígitos para que respingos de novas cores estabeleçam um distinto tempo. Como as várias versões de “Catedral de Rouen”, que Monet realizou em seus diferentes momentos do dia.

    Acordamos e dormimos milhares de vezes, mas somos incapazes de distinguir que cores compõem o nosso dia-a-dia.