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sexta-feira, 19 de março de 2010

Pesos e medidas


Nada melhor que acordar e ler, logo de manhã, a sempre lúcida interpretação dos fatos como esta, de Hélio Schwartsman, colunista da Folha. Melhor que esta, só dois Schwartsmans. Não me ocorre acrescentar nem menos uma vírgula a este texto.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O parâmetro do bolso


Há pouco mais de um ano passei a cortar meus cabelos num salão chinês, a poucos metros de casa. Finalmente acertei quem fizesse bem o que aparentemente parece simples. Curtíssimos, mas cuidadosamente despenteados, como o look de quem vai trabalhar tal como se levanta de manhã, mas sem pijamas.

Por renovar o corte com frequência - por alguns milímetros de aparos - já estava aborrecida com salões italianos onde até então eu recorria. Pelo serviço minimalista - corte sem o xampu com o habitual mau humor italiano - eu pagava cerca de 40 euros e ainda saia de lá sem a convicção de que viera como pedido. Já o jovem chinês, com o corte perfeito, xampu e até massagem extra me cobra apenas 10 euros, uma diferença abissal nestes tempos de contenção.

De fato, o salão chinês é sempre cheio hoje, frequentado por clientes que até poucos anos atrás menosprezava os serviços prestados por estrangeiros. A realidade muda com grande velocidade, mas os velhos clichês são duros a morrer. Há quem ainda acredite que chinês seja definitiva e categoricamente prerrogativa de má qualidade, esquecendo-se que as histórias se alternam. O rádio transistor iniciado pela renomada Sony pode dizer algo à respeito.

No domingo, me encontrei com amigos que vivem fora de Milão, num pequeno vilarejo privilegiado de verde e montanhas. Para festejar, fomos a um restaurante muito frequentado na região por oferecer excelente cozinha italiana, à altura de muitos tradicionais centenários estrelados por Michelin. Seu proprietário e chef eram chineses.

Havia fila de espera na porta. Eu poderia prolongar este texto falando horas a fio sobre os males da globalização, mas ao pedir a conta neste restaurante, nossos bolsos sucumbiram e, acima de tudo, agradeceram.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O tempo e o mouse



Passei ontem a inteira manhã imersa no meu arquivo morto - coisas do final dos anos 80 para cá - a procurar dados de um antigo contato de trabalho. Em meio a pilhas e pilhas de correspondências, faxes e rabiscos amarelados.

Folhear o registro daquele período precedente a internet parece paradoxalmente remoto e extemporâneo. Ao contrário da velocidade do mouse, a busca requer o manuseio, folha por folha. Cansativo e entediante, se devo confessar. No entanto, o passado é fisicamente tangível, graças a esses papéis, um registro profissional de sangue, suor e vá lá, algumas cervejas de todos estes anos.

Recuperar o passado hoje nos basta um clique. Localizar algo ou alguém dispensa a fadiga do carteiro ou arquivos impressos saídos das gigantescas prensas de Gutemberg. Nem precisamos mais calcular apreensivamente o tempo de um telefonema internacional por medo de uma conta pesada.

Há também redes sociais, através das quais podemos recuperar amizades dispersas ou bisbilhotar vida alheia, o último hobby global. Com o clique, recuperamos do arquivo invisível o passado em imagens e vozes, dispensando relações táteis e intermediários enervantes. Mas podemos cancelá-las no etéreo com a mesma velocidade. E o fazemos, diariamente.

Não sou refratária a toda essa comodidade. Ao contrário, sou infinitamente beneficiada no trabalho e nas relações afetivas; sobretudo por me encontrar fisicamente longe das minhas referências culturais, famílias e amigos. Desfruto também da outra vertente, a globalização - esse mal necessário - , através de vôos econômicos e outros serviços que me ajudam a aplacar emoções retidas pela distância.

Porém, com a nova percepção do tempo, tenho a impressão de que algo tenha sido subtraído da nossa alma. A espera ou a expectativa, por exemplo. Será o preço a pagar pela voracidade que reduz a existência de 20 ou 30 anos em dois segundos.

O que me perturba nesse estranho senso de vazio é que o mouse parece ter banalizado nossas ações. Palavras como nostalgia e saudade não permitem mais margens para ruminações ou ressentimentos, porque o ontem e o hoje perderam a linha confinante. A volatilidade nos tolheu também o direito a devaneios e fantasias. Como aquela emoção que precede a busca nas redes sociais por amizades perdidas ou amores desencontrados. O desejo é aplacado e suprido tão instantaneamente que o prazer se vaporiza para cair novamente no esquecimento.

Mas são apenas ruminações passageiras, enquanto - raios - , ainda continuo a procurar o bendito documento.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Bastardos gloriosos


Não vou fazer rodeios. Somos uma nação bastarda que redundamos até nos sobrenomes extensos como um trem. Pronto. Mas tem o aspecto genético positivo nesse abastardamento - uma ressalva para não levar uma paulada - , que o pobre escrivão do cartório certamente não concordaria comigo. Haja espaço no formulário.

Um contador da esquina pode se chamar José Edicleyton Tapajós de Rego Pinotti Soares da Silva Schneider, mas o chamamos de . E ninguém se lembra do resto. Mesmo a balconista da padaria onde tomamos um cafezinho pode carregar uma suposta linhagem de respeito, ou não se chamaria Marineide da Silva Ortiz Soares de Andrade Albuquerque Nakamura De Santis, a simpática . No máximo, Mara, para dar-lhe um pouco de consistência fonética e um mínimo de contrapeso à extensão.

O brasileiro só começou a se interessar por árvore genealógica da família por razões puramente migratórias. Para o efeito de vistos, se entende. E ainda, ganhou vantagens nisso. Com sobrenomes quilométricos - mesmo desconhecendo seus ascendentes, laços e nós cegos de tanta miscigenação - pode apostar em um dos cinco ou mais do que dispõe. Pode ser o visto para Portugal, Espanha, Itália, Japão, Nigéria e até para a nação Xingu.

Quem sabe o Silva que carrega tenha um remoto parentesco por parte do cunhado do tio-avô, que não assumiu a paternidade com a prima da auxiliar da cozinheira-chefe da corte da família Bourbon? E vai que o cônsul espanhol, antes de assinar o visto, identifique a linhagem do Silva, o mecânico do bairro, exatamente no período de domínio espanhol sobre os lusitanos e o coligue a Orleans? Pode vir à luz até um título nobiliar, com direito a herança para brigar, caso perca a oficina mecânica com a crise.

Mas o problema da busca pelos ascendentes não deixa de ser uma odisséia - dada a nossa precária formação escolar - , sobretudo quando devemos descobri-los num determinado contexto da História universal. Afinal, mesmo que a internet nos dê acesso aos tempos de Moisés para chegar à nossa genealogia, mal sabemos situá-la historicamente, já que ninguém se lembra nem menos o ano em que Tiradentes foi à forca sem recorrer à Wikipédia.

Nessa recente corrida por genealogia, descubro que no Brasil, onde vive a maior comunidade japonesa no mundo, revela uma singular estranheza. Ninguém tem um avô pedreiro ou pescador. Todos têm descendência de nobres samurais e de grandes senhores daimyo dos xogunatos que remontam ao período de Nobunaga. Falta descobrir os descendentes de Musashi e Naruto, mas tenho certeza que ainda os encontrarei nos interiores de São Paulo.

Eu? Segundo a minha mãe, parece que tenho algo a ver com o imperador Akihito. Sem falar da homônima indústria japonesa de motos da qual, com um bom advogado, eu possa talvez provar que tenho direito a alguns trocados de herança.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Turistas sexuais no Brasil



Por hábito, peço sempre a última poltrona do avião quando a viagem é longa, na esperança de que eu possa dormir dignamente deitada, quando o voo não está lotado. A escolha do fundo é sempre uma loteria, pois nos reserva também surpresas desagradáveis. Se não é a incessante descarga no banheiro, são as pontuais conversas e gargalhadas incivis de passageiros entediados. Com a desculpa de esticar as pernas, se aglomeram lá no fundo em animados bate-papos. Sem o menor respeito aos que dormem em torno.

Mas foi naquele estreito 'ágora aéreo', que me ví inúmeras vezes transformada - ainda que eu fingisse profundo sono - em confidente involuntária de conversas de turistas estrangeiros, com aberrantes lugares-comuns acerca do país de destino. E não há desconforto ou frustração maior que ouvir suas piadas e não poder replicá-los, quando o tal destino é o próprio país de origem.

Na triste estatística pessoal, sete em dez viagens ao Brasil, ouví excitadas conversas de expectativas pelo paraíso brasileiro de "mulheres fáceis", por grupos despudoradamente constituídos apenas de homens, solteiros ou aposentados. Alemães, suíços, italianos ou holandeses, não importa; quase sempre com o destino final em alguma cidade da costa brasileira.

Nem é necessário compreender suas línguas para intuir o contexto, pois bastam alguns substantivos em português saltarem cá e lá nas suas conversas, intercaladas de grandes gargalhadas, como se ao redor não houvesse presença de brasileiros. Palavras-chaves como "mulata", "favela", "veado', "bunda" e outras coisas inomináveis, supostamente pescadas na internet ou nos guias turísticos promovidos no exterior pela própria Embratur. Ou até mesmo sugeridas por brasileiros que vivem nos seus países. E afinal, o que dizer se agências do próprio governo brasileiro instrumentalizam a expectativa, com fotos de mulheres seminuas, com o Corcovado ao fundo, para vender o próprio turismo fora do país?

Num dos tantos sonos roubados a caminho do Brasil, me chamou atenção uma conversa sussurrada entre três italianos, de me fazer estremecer, logo ao lado da minha poltrona. Supunham, talvez pelos meus traços orientais, a ignorância da língua. Valiam-se de expressões 'codificadas', mas bem compreendidas por mim. Discorriam sobre um brasileiro que os aguardava no aeroporto, com roteiro 'turístico-sexual' supostamente personalizado, incluindo aí a garantia de pousadas em companhia de 'ragazzini' e 'ragazzine', meninos e meninas, durante a permanência numa cidade nordestina. E sem nenhum pudor, e com uma calculadora nas mãos, se puseram a contabilizar a 'tarifa' delle ragazzine - como fosse aquisição de mercadoria qualquer - e outras vantagens oferecidas pelo câmbio de moedas.

Hoje de manhã, ao ler este artigo na Folha, meus dedos dispararam sobre os teclados para escrever este texto. Um impulso talvez para contrapor o senso de impotência perante conversas como aquelas, ouvidas durante os voos, e pela ausência de um cerco mais severo contra o turismo sexual no Brasil. E quanto ao artigo, Robin Williams apenas confirma o que se espera do nosso país. A começar pelo que a própria Embratur vende aos estrangeiros.

Segundo os dados de 2008 da Unicef, 80 mil italianos se lançam anualmente ao turismo sexual.
Quantos serão os americanos, japoneses, alemães e outros tantos estrangeiros prontos para o embarque hoje?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O bom milanês


Aprecio muito o verdadeiro cidadão milanês, com sua inata discrição e sobriedade. Eles são poucos em Milão. Avesso a frugalidades e rodeios de palavras, a sua aparente indiferença com vizinhos é muitas vezes confundida com esnobismo, mas são os aspectos desse italiano profano que mais me faz sentir à vontade.

É verdade que a mentalidade milanesa nem sempre agrade aos italianos de outras regiões, ao fulminá-la como 'fria' ou 'individualista', para engrossar a lista dos lugares-comuns. São certamente atribuições superficiais sem nenhum ranço, que todos os centros urbanos, industriais e financeiros recebem em comum, cada qual nos seus confins. Eu as corrijo como pragmática e sensata, que preza a sua individualidade sem descer no individualismo. Um bom milanês, em poucas palavras, não se vale de retóricas e nem se esforça a recolher belos adjetivos para sí.

Pessoalmente o meu critério de simpatia nunca se baseou na alegria ou no sorriso de um povo. Prefiro a direta sinceridade e disciplina do cumprimento de palavras a profusão de alegria e eloquência evasiva. Abraços efusivos e risadas em altos decibéis conquistam apenas nossas impressões imediatas, o que nem sempre se traduzem em respeito. Suspeito sempre dos superlativos.

Estendo esta mesma impressão dos milaneses aos japoneses de Tóquio, que por razões profissionais mantenho maior contato que das demais cidades japonesas. Não porque a cidade seja mais rica, afluente e cosmopolita do Japão. Me refiro ao velho e bom japonês dos tradicionais bairros de Tóquio, que por razões que só culturas antigas são capazes de manter naquele vórtice humano, ainda conserva com sobriedade os bons princípios de usos e costumes nas relações humanas. Tudo isso com o devido respeito e distância.

Financeiramente, meus clientes de Tóquio nunca renderam alguma vantagem significativa para o meu bolso. Com algumas exceções, quase todas as transações comerciais com eles foram bastante modestas, de dimensão humana, suficientes para eu pagar minhas contas e impostos. Em contrapartida, tive muitas compensações com eles. A certeza da relação duradoura e contínua, baseada na confiança recíproca de palavras. E nem sempre ditas. Ao longo dos anos, muitos deles mudaram de setor devido à crise, mas ainda mantemos relações cordiais como se nada tivesse mudado.

Será uma casualidade, mas não obtive a mesma satisfação com alguns profissionais de Osaka, cidade igualmente grande, cuja cultura se distingue dos demais japoneses pela grande desenvoltura e uma escancarada alegria. A antítese de Tóquio, em tantos aspectos. Com eles concluí vários furos na água, após entusiasmantes trocas de cartões de visita, muitos souvenirs de presente e promessas em pompa magna de grandes negócios juntos. Palavras. Simplesmente palavras.

Falei disso tudo apenas porque levei a enésima paulada na cabeça ontem, de um novo fornecedor de uma profunda região italiana, com um dos índices mais elevados de desemprego do país, conhecida também pela sua alegria e de "gente che sa vivere". No trabalho, pouco me importa a alegria; me interessa é o peso da responsabilidade.

Bem que eu havia desconfiado da excessiva simpatia e falação durante os ricos jantares antes do contrato. Iniciou com delongas na entrega de pedidos, desculpas esfarrapadas e despudoradas atribuições de culpa a terceiros. Até o cancelamento aleatório do pedido, sem nenhum aviso prévio. Mas não um pedido de desculpas. O meu cliente japonês ficará desfalcado da coleção de calçados este ano.

Seis meses de promessas para acabar com um furo na água. Viver com alegria sim. Viver de alegria, só os humoristas.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Desperdício


Estava para postar sobre essa 'comidinha do bem', da foto abaixo, preparada no último domingo com a reciclagem de todas as sobras da noite anterior, quando coincidentemente me deparei com dois artigos publicados hoje, relacionados ao tema.



O primeiro discute o desperdício de comida no mundo, no fórum da BBC Brasil. O outro, publicado no jornal italiano La Repubblica, cita o caso de uma pequena cidade australiana de Bundanoon, com apenas 2 mil habitantes, que decretou a proibição da venda de água mineral na cidade. Os números pelos quais a cidade se baseou para a drástica decisão revelam a incoerência da devastadora indústria de consumo e o círculo vicioso no qual todos somos cúmplices, ao repetir a máxima popular "minha contribuição não faz nenhuma diferença".

Segundo o artigo, é necessário 81 milhões de litros de petróleo e 600 bilhões de litros de água para produzir 154 bilhões de garrafas plásticas consumidas hoje. Um paradoxo, pois 1 litro de agua mineral que compramos na esquina, necessitou de outros 4 litros de água apenas para produzir o seu recipiente. Sem falar da crescente expansão e lucros das empresas engarrafadoras, que nos impõem este bem natural e vital como fosse um 'produto' ou até uma grife.

Ao diagnosticar problemas renais há cerca de 8 anos, me incentivei a cortar o consumo de água engarrafada pelo de torneira, como solução mais racional e consciente para a terapia. Eu precisava tomar ao menos 2 litros de água por dia. O tratamento e distribuição da água encanada de Milão são frequentemente certificados como excelentes - iguais ou até superiores que muitas marcas difundidas - , razão a mais para que eu me liberasse de vez do remorso com a multiplicação de garrafas no meu lixo. Era um non-sense suar sete camisas para buscar minhas provisões no supermercado da esquina por um bem que possuo em casa e enriquecer as empresas de PETs e engarrafadoras. E ainda, ter que descer continuamente com sacos gigantescos de lixo para o cestão diferenciado do condomínio.

O artigo me estimulou a recalcular minha pequena mudança doméstica. Nestes anos de terapias renais, deixei - surpreendentemente - de produzir de 3 a 5 mil litros plásticos em casa. E num cálculo inverso, a indústria produtora de Pets economizou 20 mil litros de água para produzir o meu lixo. Quem diz que o nosso microcosmo não faça o macro?

Bem, sobre a comidinha da foto acima deixo para a próxima...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A fila anda

Costumo medir os sinais dos tempos no calhamaço de panfletos que entope a minha caixa de correspondências.

Empréstimos sem fiador "a juro inócuo"; encanadores de emergência "sem cobrança de taxa de saída"; conserto de dentaduras "em apenas 24 horas"; excursões gratuitas em ônibus de luxo para fábrica de móveis X "sem compromisso de compra" (mas parada e almoço obrigatórios no Restaurante Y) e outras apelações afora.

O barômetro é bastante rudimentar, é verdade, sem nenhum embasamento científico. Mas àqueles cujos índices do governo ou de agências econômicas parecem apenas números estatísticos dirigidos aos banqueiros e grandes empresas, estes panfletos podem servir de referência ao estado real da crise. Ao menos para nós, o 'povinho'.

Numa economia tradicional e refratária como a italiana, recentemente saída dos crivos estatais e baseada em pequenas empresas - quase sempre de gestão familiar - , os novos serviços fazem, sim, grande diferença. O da percepção de quanto estamos imersos na crise. E isso fere até a identidade cultural italiana, atropelada pela repentina liberalização de mercado e concorrência, e pela necessidade de revisão dos orgulhos nacionais.

Quando me estabelecí neste país, há mais de 20 anos, era quase impensável que uma pizzaria fizesse entregas a domicílio. "Pizzas são boas sobre a mesa de uma pizzaria", dizia a grande maioria defensora da boa família cristã-tradicional-ortodoxa. Como adepta do 'slow-food', concordo plenamente com a tal filosofia, se isso não transformasse o mercado italiano num feudo de província em contraste com o resto do mundo.

Me lembro, ainda hoje, - e foi no final dos anos 80 - que o meu aparelho de fax se emperrou justamente num caso de emergência e tive que recorrer ao serviço externo para enviar um documento a Miami. O documento me fora enviado inicialmente do Japão, para que eu posteriormente repassasse a Miami, para completar uma transação comercial.

Percorrí papelarias e agências telefônicas, até descobrir que somente o Correio italiano - mas então apenas a agência- matriz da cidade - fazia o serviço de envio de faxes. Dentre 10 guichês, apenas um funcionava. E aquele único funcionário público-bufão ainda se lamentou com a minha presença, pois a minha petulância o distraiu da leitura do jornal " La Gazzeta dello Sport". Irritado por ter que me 'servir', ainda tentou me intimidar em altos decibéis para que eu retornasse mais tarde, porque "agora estou ocupado". Ao final da discussão, o funcionário ainda teve o caradurismo de afirmar que naquela agência 'não enviava fax a Miami' (!), por razões técnicas!

Mas esta é apenas lembrança de uma Itália que renunciava à herança craxiana pelo berlusconismo, não fosse o pequeno intervalo-escândalo das operações 'mãos limpas' do bom magistrado italiano. Não fosse a internet hoje, é possível que eu me encontrasse em Cariri d'Oeste, trabalhando em minha horta, longe do estresse que comporta uma transação comercial.

De volta aos panfletos que inundam a minha caixa de correspondências, noto que hoje, a culpa aos bodes expiatórios de turno - "estes chineses falsificadores" e trabalhadores extracomunitários - já não encontra um interlocutor que o rebata ou compartilhe da mesma opinião, senão na mídia pró-Berlusconi. Encontrar um culpado externo pela crise não cola mais. O bolso dói, e a urgência de trabalhar e concorrer não dá vasão às discussões inúteis. Finalmente eu vejo a fila andar.

* Mas o comércio, bancos e instituições continuam a fechar na hora do almoço...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

TAMto faz, o cliente


Por ineficiência do seu site e pela falta de resposta a um e-mail enviado dias atrás, tentei repetidamente ligar à agência local de uma nota companhia aérea brasileira, que opera vôos diretos desta cidade para São Paulo. A longa e torturante gravação em bilíngue me sugeria um dos 9 (nove!) departamentos internos ou um número externo, o abominável 199. Ao preferir o número interno, o suplício para que alguém respondesse foi ainda mais penoso, pois em seguida, e misteriosamente, a ligação caía. Ou faziam cair.

O número precedido por 199, avesso ao 0800, é um estranho anacronismo aderido por algumas empresas, sobretudo as aéreas. Uma tentativa non-sense que coraria de vergonha os mais prolixos dos antagonistas de Adam Smith no distante século 18. O consumidor paga do seu bolso o dobro de tarifa nas ligações para obter informações de seus produtos. Uma estranha lógica de pagar para comprar. E uma barreira preventiva que as protege de clientes petulantes caso o assunto seja espinhoso. Óbvio, não disquei este prefixo. Por princípio.

A terceirização é isso. É um modo de vender o mito da velocidade e eficiência para escamotear a ausência delas. Algumas empresas dão a desculpa de contenção de custos para ancorar-se no bolso alheio. E garantir o prêmio-bônus de seus altos executivos, claro.

Serei apenas eu a sentir nostalgia de interlocutores reais do outro lado da linha? E ainda devo pagar o dobro por isso?

terça-feira, 31 de março de 2009

Duppla consoantte


De onde vem esta aberrante mania dos últimos tempos de duplicar consoantes em nomes e sobrenomes?

Ilegíveis. Xenófilo, talvez. Exemplos? Claudia Leitte, Albertto, Souzza, Robertto, Almeidda e até Pintto! Os nomes já não eram bonitos?

Mas o mais impronunciável é a grife Colcci. Será arremedo de Colucci ou Colci? Mas como flexionar a dupla "c" depois do "l"? Como fica isso foneticamente, caz...çarola?

terça-feira, 24 de março de 2009

Especulação e choradeira


Vivo no primeiro de um típico edifício milanês de 5 andares, construído nos primeiros anos de 1900. Nada o distingue de outros edifícios em torno, quase todos precedentes ou deste mesmo período. E como ocorre com toda a área urbana de certo peso histórico, novas edificações são raras, senão por razões extremas, como abandono de proprietários, perigo de dano a terceiros e outras causas naturais.

O resultado disso é que a a área urbana milanesa sofre enorme déficit de imóveis para quem necessita viver próximo ao centro financeiro e comercial, criando assim, um próspero mercado de especulações. Na falta de novas construções, especula-se sobre adaptações, ao limite da legalização. Seja para alugar ou para comprar.

Há pouco mais de dois anos, uma construtora adquiriu um imóvel logo abaixo do meu apartamento, no andar térreo. Diante da incredulidade dos moradores, decidiu-se que daquele pequeno espaço "extrairia" quatro novos apartamentos. A equação nos soava como quem colocaria a população paulistana dentro de Campinas. Além disso, o andar térreo em edifícios como este quase nunca é ocupado para uso residencial.

Entre fiscalização, desvios de burocracias e constantes paralizações da obra, passei um ano à beira de histeria, suportando rumores de britadeiras e marteladas no andar inferior. Confesso, a obra atiçava a minha curiosidade, sobre quem compraria um imóvel cujas janelas dariam diretamente à calçada.

Um ano depois do estressante rumor, conhecí finalmente o que a construtora chamava pretensamente de lofts. Cada apartamento é um ambiente único, que mede pouco mais de 3 metros de largura por 4 de comprimento, com um banheiro cego num dos ângulos. Para aproveitar o pé-direito de 3,5 metros de altura, criou-se um micromezanino onde cabe apenas uma cama de casal, e nada mais. No total de 24 metros quadrados, está incluída a metragem do mezanino, é óbvio. O preço? Exatos 280 mil euros, sem possibilidade de um desconto.

Até agora, apenas um comprador veio se estabelecer no imóvel, às vésperas da crise financeira. Um morador com seus 40 anos, com ares de profissional bem sucedido, como era previsível. Nenhum trabalhador médio poderia se permitir a este preço, sem falar do exíguo espaço. Com o agravamento da crise, outras 3 unidades continuam mofando sem um comprador, mas seus preços não baixaram de uma vírgula sequer, desde a inauguração.

E não é que vejo construtoras como estas nos debates de TV, chorando as pitangas por uma ajuda do governo e culpando a crise pela paralização de vendas no setor?

quarta-feira, 18 de março de 2009

Milão X Tóquio


É inevitável que os japoneses que recebo em Milão acabem por comparar o custo de vida local ao de suas respectivas cidades. O que me surpreende é que mesmo os de Tóquio, se espantem com preços de muitos bens de consumo. E ao conhecer uma miríade de taxas e pesados impostos locais, acabam por questionar os parâmetros aplicados por estudiosos econômicos que de tempo em tempo estabelecem rankings de cidades mais caras do mundo.

Se o salário médio italiano está entre €1.200 a €1.400 líquidos, os valores mais elevados são atribuídos ao milanês, por concentrar em si toda a atividade econômico-financeira do país. Mas comporta também os paradoxos. Com a liberalização de mercados nos últimos 10 anos, os jovens recém-formados (e pós-graduados) sucumbem a novos contratos com salários entre €900 a €1.000, quase sempre em áreas mais disparatadas e sob a constante pressão de ver a renovação negada. Situação inversa ao de operários com salários superiores, garantidos pelos velhos contratos, como também de prestadores de serviços como encanadores, pintores, eletricistas ou pedreiros. Mesmo um engenheiro formado neste mesmo período, com experiência inferior a 5 anos, pode não chegar a €2.000 líquidos.

Isso explica a razão de quase 70% de solteiros do país, entre 25 a 35 anos de idade, viverem com a família por longos anos. O aluguel de um apartamento mais econômico, o monolocale, custa em média €800 nos bairros milaneses. Isso já representa de 60 a 80% do salário destes jovens. Trata-se de imóvel com ambiente único e banheiro, com menos de 30 metros quadrados, correspondente ao que chamam de "one-room mansion" no Japão.

O mercado imobiliário milanês não oferece alternativas como quartos de aluguel ou pensões para os menos abonados. Ao contrário, o que Tóquio carece de espaço, há de opções de preços. A mesma tipologia de imóvel, com espaço físico pouco menor que o milanês, custa em torno de 30 a 35% do salário médio de um jovem profissional da capital.

O hipotético Giovanni, um bancário milanês de 30 anos, com seus €1.200 mensais pode apenas sonhar com a vida independente. Ainda que fosse possível, ele deve ainda incluir nas equações o seguro e taxas obrigatórios do carro, cujo modelo popular não sai por menos de €800 ao ano. Há despesas domésticas como luz, telefone e gás (mínimo €50 cada conta), além do combustível e alimentos. E há a despesa diária do almoço.

Com exceção das grandes empresas, que oferecem bônus-alimentação para o almoço - ainda que a metade do valor seja completado do próprio bolso - ,um trabalhador de média e pequena empresas possui duas opções econômicas: um sanduíche e uma bebida por €6 a €7. Ou um prato comercial de €12 a €15 nos bares mais modestos.

Num rápido cálculo, um prato comercial custa a Giovanni cerca de 1,2% do seu salário, enquanto ao bancário Hideki, o seu correspondente japonês de Tóquio, bastará 0,5% do salário médio de 170 mil yens que lhe cabe, ao pedir um teishoku popular. A esta altura, se Giovanni tiver o aluguel sobre os ombros, comer fora à noite se torna um devaneio. Um modesto jantar numa trattoria comum, consultando cuidadosamente a coluna de preços e não o de pratos, gasta-se em média €30 por pessoa, ou 2,5% do salário. Mesmo num hapy-hour no bar da esquina, arrisca-se a desembolsar €20 em poucos minutos.

Como diz um velho cliente de Tóquio, que há mais de 20 anos acompanha o processo econômico italiano, não há economia mais precisa que a do bolso do cidadão comum, que ele chama de "economia de percepção". O resto, é estatística fria saída de confortáveis muros de gabinetes.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Classe econômica


Posição do poleiro da classe econômica. Nem em pé e nem sentado.

Como muitos já devem ter lido, a Ryanair, companhia aérea irlandesa de baixo custo começará em breve a cobrar 1 libra pelo uso do banheiro, durante o vôo. Outro corte nas despesas para baixar ainda mais o preço das passagens é a eliminação dos balcões de check-in, cujo serviço estará on-line, por conta dos passageiros.

Se as medidas beneficiam o bolso do passageiro e não o lucro da empresa, a idéia não é má. Considerando que ela opera apenas no continente europeu, mesmo um passageiro que esteja com algum distúrbio intestinal, gastará 2 ou 3 libras no máximo, já que seus vôo não duram mais que 2 horas.

Fiquei pensando se a moda de corte nas despesas pegasse também os vôos intercontinentais. Se já transformaram a classe econômica em poleiro, deixar as galinhas sem o banheiro grátis antes do abate seria crueldade extrema. Sobretudo os idosos e mães de filhos pequenos. Do que sobra, não há muito o que subtrair dos passageiros. A comida? O manto eletrizado? Os filmes? Passageiros em pé, como nos ônibus urbanos?

Já fantasiei infinitas engenharias para amenizar a tortura. Poltronas-beliches ou triliches comandadas por controle remoto; eliminar a classe executiva e transformá-la num grande hall com camas dobráveis até o teto ou criar vôos-cargo só para as nossas bagagens e transformar a barriga do avião num imenso dormitório. Mesmo sob 50 graus negativos!

Se os preços das passagens fossem estabelecidos segundo os serviços opcionais, eu cortaria a comida plastificada. Menos o chafezinho quente. Desde que disponibilizem microondas a bordo. E que os aeroportos vendam marmitex a preço popular, e não a preço de monopólio.

Em todo o caso, até o fatídico 11 de setembro, sempre embarquei com a minha sacolinha. Com água, sucos, cervejinhas, lanchinhos e frutas, sempre disponíveis sob a poltrona. O brasileiro sempre temeu o que chamam de "farofagem", mas por várias vezes embarquei do Brasil com meia dúzia de pastéis, coxinhas e quibes na mão. E comí a bordo sob muitos olhares invejosos. Menos dos europeus e japoneses, habituados a abrir seus lanches em qualquer lugar.

Outra coisa que eu cortaria são os filmes e os brindes, desde que aumentem os centímetros quadrados entre as poltronas. Como meias, cremes ou escovas de dentes. Quem não viaja sem a própria escovinha? Há quem entre com aquela meia 100% sintético no chão molhado do banheiro, mas eu prefiro arrastar meus pés inchados enroscando os sapatos até lá. Até porque aquele cubículo beneficia apenas os homens, que podem fazê-los em pé. E ainda assim, o fazem fora do alvo.
Mas entre todas as opções acima, melhor mesmo é ganhar na loteria e viajar com o próprio avião. Ou apenas de classe executiva, - ainda que eu seja contrária à divisão de classes. Creio que a probabilidade de acertar uma loteria seja mais próxima à realidade do que as companhias alargarem suas poltronas...