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terça-feira, 13 de abril de 2010

Volto já

Prezados bons fregueses:

O blog se repousa temporariamente para balanço. Grata pela preferência e até a reabertura, com grande abraço.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Dia da caça


Não pude evitar um meio-sorriso com esta notícia da BBC Brasil, sobre o incidente ocorrido no Parque Nacional de Kruger, na África do Sul.

Que venham mais dias da caça ao de caçador.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Deu branco

Abrimos uma conta blog-trincheira para disparar contra os males do nosso mundinho, espairecer a cabeça ou jogar nosso milésimo de segundo de frustrações no etéreo de milhões de gigabytes, esperando que isso resolva nossos desencantos.

Mas há dias em que dá branco. Branco-Omo. Nem desencanto e nem euforia aplaca a apatia. Dias assim, melhor deixar algum texto válido para depois.

Acho que mergulhei demais no universo irlandês. Daqui a alguns dias passa.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Anna "Veste Prada" Wintour



Às vésperas do grande circo milanês de Moda, que inicia depois de amanhã, Anna Wintour, a poderosa diretora-carrasco da Vogue America - aquela mesma entidade que veste Prada - foi categórica ao reconfirmar seu poder de decisão.

Sem se descompor do alto da sua poltrona no outro lado do oceano, ordenou a Câmara Nacional de Moda Italiana e suas centenas de indústrias do setor a "enxugar" com urgência o calendário semanal de desfiles. Numa decisão unilateral decidiu dedicar-se apenas três dias a Milão, rompendo compromissos já agendados ao longo da semana na maratona de desfiles. Os estilistas? Que se arranjem entre si para comprimir ou mudar a programação. Não conseguem? A inabalável Wintour não conhece piedade para pegar a estrada de volta para o aeroporto. Ineficiência e morosidade não entram no seu vocabulário.

Polêmicas de bastidores à parte, todos estão sucumbindo em silêncio, afinal. Por tabela, o batalhão de jornalistas e compradores internacionais que já está chegando à cidade terá que reajustar-se à nova ordem de Wintour. Terá que remarcar ou cancelar agendas que vão do hotel; horário de desfiles; entrevistas; pedidos e extenuantes deslocamentos de um evento a outro sem os saltos Jimmy Choo, mas um cômodo tênis Bamba.

O circo que vende sonhos e desejos garante o espetáculo apenas quando vende a própria alma ao Diabo de saia.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Astúcia sem fronteira


Com um pouco de intuição e mímica, fui compreendida pelo motorista de táxi em Istambul, na Turquia, de que a corrida era de emergência. Por um repentino problema intestinal com a minha companhia de viagem - que mal conversava comigo para evitar riscos inúteis - todo minuto seria precioso para chegar ao conforto de quatro paredes do hotel.

Mas creio que eu tenha lhe pedido demais, ao suplicá-lo que fizesse o percurso mais breve e evitasse ruas congestionadas para chegar ao destino, pois fizera o exato contrário.

Certamente o motorista não previu que eu não fosse, digamos, uma autêntica "japonesa-turista-fácil-de-levar-na-conversa-e-enfiar-a-faca-por-alguns-yens-a-mais", mas uma brasileira com certo know-how em malandragem tropical. Durante o trajeto, deixou se enganar pelo meu resguardo e silêncio quase monástico, já que não costumo jogar conversa fora com motoristas. É meu meio preventivo para evitar simpatia gratuita paga com trapaças. Se sabe, os turistas japoneses são potenciais vítimas nesse tipo de malícias em qualquer parte do mundo.

De fato, o motorista pegou as ruas mais disparatadas e distantes da cidade. Ao chegar à porta do hotel, eu lhe estendí a nota de 50 liras turcas para as 48 da corrida, algo em torno de 25 euros. Ao pegar o dinheiro, o motorista simulou descaradamente incompreensão, afirmando que recebera 5 liras, e não 50, que escondera rápida e furtivamente entre o maço de notas prontas para o troco. Só percebí o embuste depois que lhe dei outras 50 liras com mil sorries. Só não previu que eu também possuísse vantagem redobrada em insubordinação e rebeldia, adquiridas ao longo dos anos de sobrevivência em meio a astúcia "à italiana".

Ao me recusar a devolução de 52 liras, me transformei numa rumorosa Anna Magnani do cinema italiano e o ameacei a altos decibéis a denunciá-lo à polícia, debatendo-me na poltrona. Surpreso com a reação da turista 'ingênua', o motorista me devolveu rapidamente o dinheiro, e com um sorriso irônico no canto dos lábios, me deixou afundando o pé no acelerador.

Relatei este fato porque no sábado passado, me vi protagonista de um replay do filme turco, aqui em Milão. Ao acompanhar uma cliente ao seu hotel - enquanto conversava com ela apenas em japonês durante o trajeto - , o motorista tentou percorrer por ruas mais estranhas, confiante de que eu fosse uma turista. Ao final da corrida, ainda fingiu que não dispunha de troco de 8 euros. Obviamente recorrí à minha já tarimbada porção Anna Magnani. De novo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Síndrome de Peter Pan



Acabo de ler esta manhã uma estatística européia que indica a Itália à frente da Espanha e Irlanda com maior percentual de jovens, entre 20 e 30 anos, vivendo no aconchego da família. São 70% deles vivendo sob a saia da mãe. Com roupa lavada, comida pronta e, claro, uma ajudinha econômica para fins de semana porque os pobres marmanjos, ou fingem ou desconhecem o senso de independência.

Segundo os dados, apenas 28% da Grã-Bretanha e 18% dos jovens da Suécia vivem na comodidade garantida pelos pais.

Creio que o fenômeno italiano não deva ser atribuído apenas à psicanálise e nem à universalmente famosa proteção da mamma italiana. Dando-se um punhado de desconto na questão cultural, o minguado mercado de trabalho, o rebaixamento dos salários - consequente da globalização - e o alto custo de vida das grandes cidades já fulminam qualquer idéia de autonomia dos jovens.

O aluguel de uma quitinete em Milão, de dimensão de 30 a 35 metros quadrados, - correspondente a muitos banheiros paulistanos da região de Jardins - custa em torno de 800 a 900 euros mensais. Ora, para um recém-diplomado, que a duras penas tenha obtido um emprego,o salário inicial será de 900 a mil euros mensais. E não será uma pós-graduação ou doutorado a garantir-lhe um rendimento melhor. E, mesmo que um benevolente pai - com excepcional mimo - decida adquirir a tal quitinete, o imóvel não lhe custará menos que 200 mil euros.

E pensar que os futuros aposentados dependerão destes jovens já me faz prever um panorama cinzento. A propósito, os três países com maior número de marmanjos dependentes são católicos. Mas a análise deste detalhe eu deixo para os outros.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Aparências


Eu estava no trem a caminho de Florença por razões de trabalho, quando à minha frente se sentou um jovem de seus 30 e poucos anos, impecavelmente vestido e estudada indiferença com o ambiente ao redor. A vaidade parecia gritar ao mundo quanto o seu perfil urbano de profissional em ascensão já havia lhe garantido um invejável sucesso entre os desprezíveis passageiros ao redor.

Mal sentou-se, cruzou espaçosamente as pernas esbarrando as minhas, sem me dirigir uma palavra de desculpas. E enquanto falava ao celular entre o ombro, abriu o laptop ocupando tudo para si a mesinha que nos dividia, como se milhões de euros dependessem de cada segundo de seus atos. E num intercalar de volume, vociferava agressivamente com "non hai capito?!" e sonoros "cazzo!", para abaixá-lo quase sussurando o conteúdo que não lhe era conveniente. Talvez quisesse reafirmar seu suposto comando na pirâmide social perante os confidentes involuntários do vagão.

Durante todo o trajeto, sua mão não pousou o celular. Quando não o chamava, era ele quem ligava a todos, repetidamente, como fosse assolado por um distúrbio nervoso.

Eu ainda não havia compreendido por completo o contexto da sua profissão. Supunha, pela desenvoltura e ostentação com que falava aos interlocutores, que fosse no mínimo um ceo de uma importante multinacional. E, certamente, outros dois passageiros que dividiam o sufocante espaço sonoro fingindo ler seus jornais também estavam tão curiosos como eu até onde o jovem prosseguiria com seus maneirismos e superlativos.

Como um refrão de anos atrás, repetido num comercial de refrigerante daqui, a imagem é tudo para alguns. Na falta de um interlocutor direto com quem simular a própria imagem num lugar público, é através do celular que se ostenta aos quatro ventos o que pretende demonstrar de si. O celular não apenas apressou nossas vidas, mas tornou-se também num cúmplice ambulante de todos os vícios humanos. Nos tornamos dependentes dele; logo, temos que ser indulgentes com o vício alheio.

Num ambiente impróprio, a humanidade se divide em dois grupos. Os que não escondem o embaraço e os que sentem os egos alimentados de vaidade ou soberba, ancorando-se naquela premissa do "sou requisitado; logo, sou indispensável". O trinado se tornou um divisor de água dos caráteres humanos.

Certamente o jovem pertencia ao segundo grupo. Foi quase no final da minha viagem que desvendei seus segredos em conversas sussurradas. Se desculpava com o chefe da imobiliária na qual trabalhava como corretor, de que havia dois meses que não conseguia sequer vender uma casa.

Fingi continuar a leitura monótona do meu livro, já que àquela altura, sua vida privada havia invadido a minha. E foi no décimo telefonema de sua mamma, que o sujeito se revelou involuntariamente. Suplicava-lhe que não contasse ao papá de que havia três meses que não pagava o aluguel do seu loft e que estava para ser despejado pelo proprietário irredutível. "A propósito, você pode me emprestar 300 euros?" Foi a última frase que ouvi, antes de descer em Florença.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Compostura, sempre


Era um daqueles restaurantes em que você se curva ao maitre pelo delito de pretender uma mesa, mesmo uma extra, ao lado do banheiro. Teto de arcadas renascimentais, piso antigo de mármore e quadros impressionistas autênticos na parede. Daqueles em que um reles cliente, quanto mais um turista, pode ferir a sensibilidade do chef ou manchar as honras Michelin apenas porque não é um habitual entre os centenários. E ainda, carregar a culpa por sentir que a nossa presença rebaixou o nível daquele ambiente.

Eu apenas acompanhava um cliente japonês, entusiasta com a resenha que lera em uma revista internacional sobre o restaurante. Queria conhecê-lo a todo custo, antes de retornar a Tóquio. Do alto do seu olhar, o monossilábico maitre nos indicou a estrada. O restaurante parecia vazio e os garçons indiferentes, já que a conta de um único cliente já pagava o ostracismo de todos.

De frente à nossa mesa, se sentava um senhor, de ares nobres, com o seu cão labrador, preguiçosamente estendido aos pés da mesa comendo um prato exclusivo. Terá sido carne de primeira. Quem sabe, carne de chianina toscana, imaginei, já fazendo as contas de cabeça. Em torno ao prato do cão, se espalhavam restos de purê e molho rosa sobre o mármore de Carrara, quando o seu dono pegou o guardanapo de linho bordado de brasão do restaurante e inclinou-se para limpar a boca do seu amigo. Passou rapidamente sobre o pavimento e deixou o guardanapo ali mesmo, no chão. Austeros, nenhum garçon apressou a se mexer, como se tal gesto fosse uma ofensa à própria profissão. Se sabe, o servilismo não se inclui nas equações dos europeus, mesmo que a função os exija.

Eram tempos em que havia mesas para fumantes e o cliente não tardou a acender seu charuto cubano, inundando todo o ambiente de fumaça achocolatada, enquanto conversava ao celular sobre leilões de porcelanas chinesas com o seu suposto agente. Outros clientes pareciam inabaláveis, ou fingiam indiferença.

Não é raro observar que no centro da civilização ocidental, certos comportamentos não provoquem indignação ou desconforto. Não se sabe se se trata de um simples desprezo pelas regras sociais ou se essa desenvoltura pressuponha uma segurança inabalável de que nos países ricos e de grandes passados históricos qualquer atitude, mesmo arrogante, possa ser justificada por simples insubordinação do momento. Digamos, um estado de espírito. Transgredir è permitido, quando se tem o dinheiro e a história da civilização da sua parte. Desde que se mantenha a compostura.

A falta generalizada de respeito dos italianos pela fila, é um exemplo. Preferem furar ou formar a sétima ou a décima fila aglomerando-as, para afunilá-las ao guichê. E os fazem sem pestanejar. E sem dar ouvidos aos protestos de quem se põe civilizadamente atrás do outro. Uma passada rápida de apagador e as regras sociais morrem ali. Claro, desde que tal atitude não parta de indivíduos de países periféricos, porque aí é "coisa de terceiromundista" e merece apenas um meio-sorriso de desdém. Transgressão com compostura e elegância, tudo bem. A cultura eurocentrista tem sempre razão.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Assalam Aleikum 2010


Bizâncio, Constantinopla ou Istambul. Seja sob qual aspecto o observemos, um post não será reduzido senão a apenas um grão de areia, diante da vastidão histórica e cultural deste pedaço que divide o Oriente e o Ocidente.

Portanto, para começar o ano de 2010, um assalam aleikum a todos! E nunca mais um Bush Pai, Filho e Espírito Santo Radical Islâmico. Amém.












quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Boas Festas!



A todos aqueles que eventualmente passar por aqui, um bom Natal e um ano novo melhor que este que termina.

Boas festas a todos!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Caquis de Natal


Faz frio nestas manhãs em que tenho saído muito cedo de casa. Algo em torno de 2 a 3 graus, sob um vento gélido dos Alpes que penetram até os ossos.

Caminhando pelas ruas rumo ao compromisso de trabalho, desejo apenas chegar o mais rápido ao conforto do calor de ambientes fechados. Mas como não perder dois minutos diante de uma beleza como esta, perdida na pressa urbana?

Os caquis, quem diria, no jardim de um edifício na região central da cidade. Não havia sequer uma folha que resistisse no alto, senão esses frutos mostrando a cor no seu máximo esplendor. Roubar um deles, apenas um direto da árvore já teria me bastado para ter o dia um pouco mais feliz.

Está eleita a mais bela árvore de Natal da cidade nestes tempos tão cinzentos de humor.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Ao Papai Noel Silvio




Querido Papi Noel Berlusconi,

Sabe, já faz um bocadinho de tempo que não sou mais tão lolita criança para participar de suas festinhas privadas, se bem que eu queria um colarzinho de diamantes brinquedo no Natal também. Sabe, como aquele que o senhor deu escondido àquela criança mocinha, a Noemi? Mesmo assim, eu lhe peço encarecidamente que leia esta cartinha e me reserve um minutinho de atenção.

O Natal está às portas. Se me consente, prefiro lhe chamar de Papi Noel, por tanta benevolência com meus amiguinhos italianos nos últimos anos e, mais ainda, com os esfomeados imigrantes que vivem no seu país. Seu altruísmo com os oprimidos não há limite, e o senhor mesmo repete a propaganda isso na tevê, todos os dias.


Mais generoso ainda é com a minoria mafiosa invisível, os empresários sem-tetos, os parentes banqueiros necessitados e com o próprio patrimônio empresarial do povo. São tempos duros para eles, eu sei... Por isso é que o senhor vai priorizar esses meninos com bons presentes, e se sobrar um tempinho, vai dar um alô ao resto da criançada desempregada em rede nacional mesmo. Qual criança não fica feliz apenas com um sorriso como seu na TV?


Mas...sabe aquele seu ajudante que se senta à direita no Parlamento aí na fábrica de brinquedos, o neofascista o Seu Bossi? Ele estranha um tiquinho com crianças que não sabem rezar o Pai Nosso, não é mesmo? Sabe, aqueles barbudinhos que usam turbantes ou caftans e só comem kebabs? Parece que neste Natal, ele quer ser bem generoso e presentear os meninos com uma alegre excursão à Meca, sem retorno. Disse que vai fazer o mesmo com os meninos tropicais que se vestem de meninas e só brincam à noite; mas também com os traquinas que vendem bolsas Shanel nas ruas. Seu Bossi diz que o Natal tem que ser "White Christmas", e não "Black Christmas" ou "Brown Christmas". Não entendí direito...

Pois então, neste Natal, eu lhe peço um presentinho a todos os desamparados da minha escolinha. Em especial, aos meus amiguinhos italianos, digamos, para os 49% da escola. Tá certo, eles são um pouco rebeldes sem causa e não votaram no senhor, mas eles são bem mais estudiosos e não ficam colados na sua tevê como o resto da turma, eu lhe garanto.

Peço também uma lembrancinha aos meninos da Magistratura, que fazem a lição de casa direitinho, mas vivem apanhando da diretoria e acusados de mentirosos. Lembre-se Papi, que alguns destes meninos de beca já morreram debaixo de bombas brincadeiras armadas por seus afilhados moleques de rua lá do sul.

O presente? Nada de caro, bem baratinho mesmo, porque sei que o seu orçamento é bem apertado com essa crise toda. O senhor é que fez bem, em ter estocado um monte de brinquedos para sempre, lá nas suas fábricas Finivest e Mediaset, e até nas filiais de algumas ilhas partes do mundo. Os meninos aqui carecem apenas de algumas coisinhas simples, tipo leis. Leizinhas contra a corrupção da diretoria da escola, contra a imunidade dos protegidos do professor e contra alguns trombadinhas de rua que vivem ameaçando os meninos de beca durante as aulas de pesquisa.

Tá vendo que não vai gastar muito? Olha, um último pedido. Não deixe aqueles meninos "pianistas" da sua fábrica votarem o contrário, hein?

Beijos, Papi Noel, vou esperar sentada ansiosamente pela sua promessa.



Muito obrigada.


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Tempos que correm


Mesmo sob um insistente chuvisco, fui ontem esticar as pernas atrás de uma livraria do centro, localizada nesta rua, da foto acima.

Estamos em plena ponte de feriados. Hoje, terça-feira, festeja-se a Imaculada Conceição. Ontem, foi a vez apenas de Milão, feriado de padroeiro da cidade, Santo Ambrósio. Admirado por milaneses religiosos e laicos pela sua erudição, Aurelio Ambrogio viveu os anos entre 340 a 390, sob o último imperador romano Teodósio. Foi escritor, advogado, estudioso da Igreja - a quem Santo Agostinho deve a sua conversão - e bispo de Milão.

Aspecto religioso à parte, a data de Santo Ambrósio é estratégica para os comerciantes e artesãos, às vésperas de Natal. Uma das ruas centrais é tomada por bancas de comidas, artesanatos e artigos para presentes, numa ebulição quase claustrofóbica. Já a noite, é reservada para personalidades, intelectuais e Vips, que se aglomeram para a abertura de temporada de concertos e óperas do Teatro Scala.

Para acabar com a alegria do feriado, me deparei com um quiosque montado pela Liga Nord, o partido de extrema-direita do polêmico líder Umberto Bossi, um dos braços fortes do atual governo Berlusconi. Os partidários do neofascismo anti-imigração - os mesmos que dias atrás propuseram a inserção do símbolo de cruz na bandeira italiana, numa nova Cruzada contra os muçulmanos - distribuíam panetone e espumante para os passantes que assinassem um documento contra novas aberturas de sedes para o culto muçulmano. Passei direto pelo quiosque, com a sensação de ter, por algum instante, retornado ao período medieval.

Esta manhã, leio na rede que a Liga Nord, através do seu jornal de partido, continua a atacar o cardeal Tettamanzi, da diocese milanesa, conhecido pela pregação à tolerância religiosa e respeito aos imigrantes e à minoria. Os partidários xenófobos o acusam publicamente: "Tettamanzi é imã de Milão".

Não bastasse, leio também que 'la prima' do teatro Scala, com Carmen de Bizet, foi tumultuada com lances de ovos contra Vips e personalidades políticas por parte de manifestantes e operários desempregados, postados estrategicamente na entrada.

São os tempos que correm. Prefiro a revolução a evolução, destes tempos amargos.


terça-feira, 24 de novembro de 2009

Saving private Berlusconi


Começa hoje no Senado o debate sobre a lei Alfano. O exército do governo italiano já está munido de todo arsenal bélico e dialético para o resgate do soldado Berlusconi. O Senado cederá, certamente, ao 18° salvo-conduto dos últimos 15 anos, libertando-o de acusas por corrupção, fraude tributária, conflitos de interesse, envolvimento com as máfias, e outras mutretas.

Se aprovada mais essa lei ad personam, que encurta os processos penais, Berlusconi poderá se safar mais uma vez com a prescrição. E junto, todos os processos de corrupção que envolvem outras grandes empresas nacionais e internacionais no território italiano.

A lei é milimetricamente sob medida, - para ele e o seu conglomerado - com a precisão da tradicional alfaiataria italiana. Na cadeia restarão apenas ladrões de galinha.

Parece que já ví esse filme no outro lado do Atlântico.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Médioman



Vivo num prédio de cinco andares, em cuja ala divido o espaço, entre outros, com duas moradoras cantoras de ópera. A do quarto andar é cantora profissional do teatro Scala de Milão, sempre em turnê pelo mundo - e agradeço as forças divinas por isso. A outra, minha vizinha direta de paredes, que ama a música lírica por prazer, já que se trata de uma engenheira que vive só, com seus quase 50 anos de idade. Esta, além do canto, há como hobby o teclado - eletrônico suponho, e não piano - além do que parece praticar melhor, a flauta. Confesso, em certos horários prefiro esta última.

Deixo claro que aprecio a música lírica. Aliás, eclética como sou, gosto um pouco de tudo, desde que o canto não estoure meus tímpanos às 7 da manhã ou depois da meia-noite, como esta vizinha direta costuma fazer. Para tudo há um horário e volumes justos, convenhamos; ainda que eu viva num país onde poucos se importam com a poluição sonora. Aquí se fala, discute, buzina, rí e se diverte em altos decibéis.

Sou da legião dos silenciosos. Tenho o meu velho fone de ouvido para a TV por princípio, que serve também para ouvir uma música. Com o fone ouço nitidamente até o murmurar do vizinho do personagem quase mudo de um Bergman (!) e ainda, não incomodo ninguém. Mas isso é apenas uma escolha minha, num mundo onde cada um grita pelos seus direitos de ir e vir, ouvir e falar.

Não me passa pela cabeça reclamar desta vizinha. Eu apenas procuro tossir mais forte para que ela perceba a minha presença deste lado da parede. Esperando, quem sabe, que desperte o seu bom senso para que diminua o volume. Se sabe, vivemos numa sociedade em que tudo é classificado em bom gosto e mau gosto. Não sei quem os determina, mas assim os são, de fato. Se eu pusesse um Reginaldo Rossi a alto volume, seria uma afronta aos vizinhos e eu seria apedrejada. Se se trata de música 'culta' no mesmo volume, tudo se encerra e se absolve em nome do 'bom gosto'. Por que se sabe, o bom gosto é elitista, e está acima de tudo.

Falei disso tudo porque faço um paralelo com a estudante da Uniban. Um parâmetro forçado, quem sabe, já que se trata de diferença visiva e outra, sonora. Aquele vestido rosa-choque é horrível de fato. Mas me intriga saber se ocorreria o vandalismo se o mesmo vestido fosse assinado por Dolce Gabbana com a etiqueta à mostra. Ou, se ela fosse uma famosa personagem televisiva que o tenha adquirido na Daslu. Quem determina o bom e o mau gosto? O mau gosto é suficiente para merecer pedradas? Ou somos forçados a ser classistas para não sermos marginalizados? Hipocrisia, claro...


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Hipocrisia Institucional


Não assisto a tevê se não aquela que eu pago. Todo o resto, os canais abertos, requer um estômago de ferro para assisti-los. São uma eficiente máquina de propaganda ideológica do governo Berlusconi, dono de tudo aquí, cujos apresentadores de programas medíocres são armados de invejável habilidade para institucionalizar a hipocrisia. E desta, articulam para a Verdade oficial incontestável.

Ontem, cometí o erro de fazer um zappping nestes canais berlusconianos. E está aí o poder de persuasão. Caí na besteira de parar num programa de Inquisição midiática camuflado em 'debate político'. Inquisidor porque o 'réu' era um político de oposição deste governo, Piero Marrazzo, flagrado duas semanas atrás em traje sumário com uma travestí brasileira. O caso de Marrazzo, até o momento da investigação, é mais uma vítima de um escândalo armado pela mídia, policiais corruptos, políticos e empresários ligados ao governo, incluindo aí barganha do vídeo de flagrante entre sí.

Mas a hipocrisia do programa, visto por milhões de italianos, o transformou num "réu" com a despudorada intenção de rebaixá-lo moralmente apenas pela sua orientação sexual, a de preferir uma travestí como companhia. Uma condenação de Marrazzo foi conveniente para absolver retroativamente Berlusconi, pelas suas 'festinhas sexuais' que recentemente ocuparam as páginas internacionais.
O debate escamoteava a defesa do primeiro-ministro com uma pauta do tipo "o pivô era ao menos uma mulher, e não uma indecente travestí, ainda mais clandestina". O réu, ausente no programa, foi jogado em meio à grande fogueira e acusado por um "crime muito mais grave" e portanto, a oposição não teria direito de inferir sobre a nota debilidade de Berlusconi por lolitas.

Para botar mais lenha na fogueira, a deputada Alessandra Mussolini, neta do ditador e líder de um partido de extrema direita italiana disparou: "Se meu marido me traísse com prostituta ou com outra mulher, posso até perdoá-lo, mas com uma travestí, jamais!" E sobrepondo sua voz a altos decibéis para abafar a única representante transsexual no programa, ainda ironizou com desprezo: "Tenho orgulho de ser mulher, porque só nós podemos ser progenitoras da humanidade, e vocês nunca poderão sê-las!".

Suponho que ela e todos os aduladores de Berlusconi ainda terão filhos e netos nesta vida. Ou seus descendentes estarão fadados à orientação apenas heterossexual? Se a televisão já é por sí um gerador de trash, que outro adjetivo poderia atribuir à televisão italiana? Até o momento não encontrei. Tenho apenas medo dela. Muito medo pela integridade dos bons italianos. Meno male, eles ainda resistem.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Aristocracia

Domingo de comes-e-bebes num magnífico casarão de veraneio de um conde, cuja linhagem da família herede remonta ao século 12.

Ao conhecer suas dependências internas, compreendemos a opulência com que os nobres gozavam na Idade Média. Será este casarão, resultado de uma das tantas indulgências concedidas pela Igreja, com títulos nobiliares em troca de benefícios financeiros que tanto enriqueceram o Vaticano?

Preferí me abster de tantas perguntas inúteis, afinal era uma festa. Estes panoramas serviram apenas de moldura à festa de casamento de uma amiga, ontem.
Uma cara amiga que escolheu este lugar para um singelo 'sim'. E elevou de um ponto percentual na escarsa estatística de casamentos no país.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Identidade cultural


É natural que eu, brasileira descendente de japoneses, seja sempre abordada como chinesa ou japonesa por estes lados do Ocidente. Não possuo absolutamente nenhum dote anatômico que me remeta ao país do Lula. Além dos olhos puxados (aquí docemente chamado de "olhos de amêndoas"), não sei sambar, não tenho um traseiro generoso e sou branquela.

Já me crucificaram até pelas atrocidades cometidas por Mao durante a Revolução Cultural, apenas para citar a pequena confusão. "Xiè, xiè", mas sou da terra onde cantam os sabiás. E então, me vem a vontade de ir embora para a Pasárgada, onde possa ser compreendida.

Isso significa um eterno duplo fardo. Ou triplo, segundo o interlocutor. O de ser interpelada sobre o Japão e o Brasil. Devo ter, na ponta da língua, informações políticas, econômicas e culturais aprofundadas e atualizadas de ambos os países, para não dar vexames. E desmentir os tristes lugares-comuns de ambos os países.

Não é uma tarefa fácil, pois tudo o que me abordam é centrado na perspectiva de grandes transformações históricas. Devo constantemente (e precariamente) tirar gilbertofreyres, florestanfernades e xogunatoseodanobunaga das mangas para escamotear minha precariedade e dupla identidade cultural. Inútil dizer que meus antepassados chegaram ao Brasil no início da década de 30, e que muitas águas e gingados correram até o meu nascimento.

Mas, sabe-se, basta utilizar a tática dos pseudo-intelectuais que se ancoram no subterfúgio mais prático. Tirar da cartola nomes 'notos' como Comte, Montesquieu ou Weber, e a coisa está feita. Basta citá-los para intimidá-los a não fazer perguntas tolas para a cabeça ainda mais tola como a minha.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Indulto a quem?


Se não possuem o visto regular, nada feito.

Os Mohameds, Badescus ou Escobares que diariamente se levantam às cinco para carregar tijolos, jogar lixos ou carregar caixas de tomates para sustentar suas famílias são criminosos. E o clandestino deverá desembolsar de 5 a 10 mil euros de multa, antes de serem expulsos do país. Desde maio, a xenofobia dos aliados do governo Berlusconi está rendendo novas entradas para os cofres vazios do Estado. Graças aos miseráveis.

Mas, se sabe. Não há político italiano - com seu gordo salário parlamentar - que não esconda em casa uma Juanita clandestina que troque fraldas de sua mamma carrancuda e inválida. Ou do nonno sem-vergonha, que mesmo acamado, não dispensa um beliscão no traseiro da chiquita porque é o único poder que ainda lhe sobrou na vida. Não, os patrões não sujam as próprias mãos, nem para acudir a própria mãe.

A solução? É uma anistia geral a todas as clandestinas "acompanhantes de idosos" - sem limite de números - , que entra em vigor a partir de hoje. Basta a família comprovar que manteve a tal clandestina em casa desde 30 de março último, e o "crime" cai automatiamente em prescrição.

Claro, esta anistia beneficia apenas os ricos. Blasfemando ou não contra os impostos, eles ainda podem arcar com os encargos sociais e trabalhistas.

O que restará à classe média? Talvez continue corrrendo o risco de mantê-las escondidas em casa, a baixo salário. Afinal, quem paga pelo crime não é ela. É a clandestina que ousou trabalhar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Calor, calor e calor



O vale de Hinom é Q-Suco para os meus ouvidos neste momento.

Está um inferno de calor. E a previsão é de chegar aos 40 graus, - a perdurar até o próximo sábado - sem uma gota de chuva por estes dias. Na sombra ou no sol, o calor persegue, umedece as vísceras e causa um tilt em qualquer cérebro. Voltei na hora errada de São Paulo.

O meu condicionador de ar é um modelo móvel. Daquele com rodinhas, que pode mudar de ambientes. Comprei quando a lei proibia "macular" a estética dos edifícios seculares, instalando aquele "horroroso e tosco" condicionador fixo nas fachadas. Em nome do bem-estar coletivo, alguma boa alma do Parlamento permitiu há dois anos que nós mortais pudéssemos sobreviver no magma de julho e agosto. A correria para a instalação dos fixos foi geral. Menos eu, com este velho modelo.

A Proteção Civil italiana já está mobilizando a população para sobreviver a este calor, e se prevê, inevitavelmente, morte de mais idosos.

Nesse meio tempo, o meu condicionador está trabalhando a todo vapor, mas não está dando a conta do recado. Programo para chegar aos 20 graus, mas "male male" requer ao menos cinco horas para descer até 27 graus.

Adeus, caso eu não poste mais nada. E se sobreviver, vou instalar os fixos depois das férias.